Fraternidade e Defesa da Vida: escolhe, pois, a vida!

…E uma vida de conversão em Francisco e Clara de Assis

 

Já dizia Francisco em Sena:

“Escreve de que modo bendigo a todos os meus irmãos que estão na Ordem e que virão até o fim dos séculos… Pois, como não tenho forças para falar, por causa da fraqueza e do sofrimento da enfermidade, manifesto brevemente a minha vontade aos meus irmãos, nestas três palavras, a saber: que em sinal da memória de minha bênção e do meu testamento sempre se amem diligente e mutuamente; sempre amem e observem a nossa senhora santa pobreza; e que sempre sejam fiéis e sujeitos aos prelados e a todos os clérigos da santa mãe Igreja.” (Testamento feito em Sena)


Assim como Jesus Cristo, o maior desejo de Francisco era que todos nos amássemos… Ü Será que lembramo-nos disso todos os dias?

A CF2008 nos lembra de defender o Amor e coroá-lo com a Vida… Vamos nos aprofundar um pouco mais nesse Amor de Deus por nós e na nossa resposta a Ele (a nossa forma de vida), assim como na maior manifestação de Francisco e Clara desse Amor incondicional: a Conversão. Para isso, um paralelo entre o texto-base da CF e referências bibliográficas franciscanas será feito para nos auxiliar. Iniciemos pela manifestação do amor hoje.

A principal manifestação do desejo de felicidade é o desejo de “amar e ser amado”. Em nenhum outro momento da história as pessoas estiveram tão livres para amar como hoje em dia, mas parece até mais difícil encontrar a felicidade no amor. O amor – para realizar-se plenamente – deve crescer num processo educativo, em que o impulso erótico (desejo pelo outro) evolui até o amor ágape (realização de si na doação ao outro). (cf. Carta Encíclica Deus Caritas est, do Sumo Pontífice Bento XVI, 2005) Como não conseguimos essa evolução naturalmente, surgem então três posturas possíveis:

1. Contra a “repressão sobre o sexo”, defende-se a posição de não estabelecer qualquer limitação à atividade sexual, deixando-a totalmente entregue à autonomia dos indivíduos.

2. Em “defesa dos valores tradicionais”, atitude que se contrapõe à primeira em nome da sabedoria e do bom senso da tradição, muitas vezes propondo a sublimação dos impulsos, cuja existência não pode ser negada.

3. A proposta que parte da visão integral da pessoa, considera o “compromisso entre afetividade e sexualidade”. Esta proposta entende a sexualidade vinculada à vida afetiva, assumida na busca do seu sentido, no diálogo interpessoal e na capacidade de dar respostas existenciais livres dentro de um projeto de vida.

Para quem tem uma visão não-tecnicista, o problema reside na correta compreensão da relação entre afetividade e sexualidade. O problema central passa a ser o da educação para uma vida afetivo-sexual integral. É importante observar que os programas podem ser eficientes ou ineficientes dependendo do contexto no qual são executados. Assim, a reflexão sobre os programas sempre deve incluir seu aspecto ético e as formas adequadas para sua implementação.

Ü Qual das três posturas acima é adotada pelos franciscanos seculares? O que diz a nossa Regra e Vida?

Veja abaixo como os argumentos a favor da legalização do aborto são interpretados:

Jurídico: – Nega os Direitos Humanos

Médico: – Mata um ser humano

– Adoece ou mata a mulher

Ético: – Discrimina seres humanos

Científico: – Seus objetivos a serviço da morte

Social: – Desumaniza e desestrutura a sociedade

– Descontrole populacional

– Aumenta a violência

Factual: – Não diminui o número de abortos

– Não diminui a mortalidade materna

– Não dignifica a mulher

Religioso: – Agride os fundamentos de TODA crença religiosa

A falta de uma interpretação correta do que é Amor leva a uma ameaça constante da vida na sociedade, seria necessário que o mundo inteiro lesse a vida de Francisco e Clara de Assis, assim como a de outros santos e santas que deram suas vidas por amor… Reflitamos como é possível a conversão diária na sociedade do nosso século. A pobreza e a exclusão social são grandes ameaças à vida. Na prática, essa ameaça à vida acontece através da falta de recursos para uma vida digna e até para sobreviver; precariedade do sistema público de saúde e seguridade social e falta de instrução.

Por trás desses processos, evidencia-se o processo de desenvolvimento capitalista. Hoje em dia esse processo é muito influenciado pela crise de sustentabilidade do Estado. Por outro lado, existem movimentos que combatem essa situação, gerando atividades e obras a partir de ONG’s e programas de governo. Aqui nos encontramos, na contramão. Temos que nos aliar a outros grupos já organizados para termos mais voz e força na sociedade. Viver a pobreza é santidade, mas deixar irmãos sofrendo com ela é desumanidade.

Junto à pobreza, também cresce muito a violência. As mortes violentas no campo e na cidade são grandes ameaças à vida em nosso país. Na cidade, a impunidade é uma causa da violência, porém o aumento da violência não reduz a impunidade, e, sim, aumenta a possibilidade de que se cometam novas injustiças. É necessário garantir a punição, dentro da lei, aos culpados, aumentando a eficiência da polícia, e não, sua truculência. Nas periferias das grandes cidades não existe um tecido social capaz de acolher a pessoa, dar-lhe uma esperança e um sentido para a vida, ajudá-la a criar laços de solidariedade. Essa é a maior causa da violência urbana.

Ü Onde é que se concentram as obras concretas das nossas fraternidades? Será que não ficamos muito abrigados/apartados da sociedade?

Nos presídios, a grande maioria dos presos enfrenta situações de total desrespeito à dignidade da pessoa humana, enquanto poucos chefes vivem em condições até privilegiadas. Assim, os presídios se tornam focos de mais violência.

Ü Em muitos locais, há a pastoral carcerária, procuramos saber e/ou nos integrarmos em seu trabalho? Será que o presídio de hoje não é o leprosário da época de Francisco?

Foi no contato com o leproso que se deu o início da conversão de Francisco.

Em se falando no franciscanismo, suas bases estão no cuidado com todos os seres, a quem Francisco chamava de irmãos. Nunca o ser humano teve tanto poder e representou uma ameaça tão grande ao meio ambiente e a todos que vivem sobre a Terra quanto na atualidade. A crise ecológica também é uma crise cultural, que marca a insatisfação do homem moderno em relação a seu modo de vida. Falta a fraternidade… Pensava-se que a população mundial cresceria até uma catástrofe ecológica. Hoje em dia se sabe que isso não acontecerá.

Contudo, ainda há quem use argumentos demográficos para explicar a pobreza das populações em regiões específicas do planeta. Muitos acreditam que as famílias pobres têm muitos filhos apenas por não ter acesso a métodos anticoncepcionais. Na verdade, o número de filhos é uma “estratégia adaptativa” das famílias:

Em realidades pobres, onde as crianças trabalham desde cedo, não existem planos de seguridade social que protejam o doente e o idoso, ter muitos filhos é uma garantia de sobrevivência para a família.

Nas cidades, entre populações instruídas, onde as crianças têm que estudar e os adultos economizam para garantir-se com planos de seguridade social em casos de doença ou na velhice, o ideal é ter poucos filhos.

O controle da natalidade depende da organização da sociedade, e não, apenas da disponibilidade de métodos anticoncepcionais.

Ü Será que já tínhamos nos dado conta disso?

É preciso ver a realidade aonde ela se mostra antes de julgá-la segundo os nossos padrões morais e éticos… A conversão é mudança, crescimento, amadurecimento espiritual…

A percepção da beleza e da bondade da vida é a primeira porta através da qual o ser humano compreende o significado da vida e a importância de defendê-la. Porém, muitas vezes, não temos essa percepção, pois escandalizamo-nos com o mal no mundo e nos perguntamos como pode o mal ser compatível com a bondade do Criador. Para superarmos esse escândalo, diz Bento XVI,

“temos realmente necessidade do Deus que se fez carne e que nos mostra que Ele não é apenas uma razão matemática, mas que esta razão originária também é Amor”.


Ao explicar o sentido do matrimônio, Cristo se refere ao Livro do Gênesis. Lá encontra a condição original e ideal do homem, feito à imagem e semelhança de Deus.

O ser humano, tendo recebido a tarefa de nomear os seres, percebe-se diferente e se dá conta de sua solidão original. Deus, vendo que o homem está só, dá-lhe uma companheira. A solidão abre para a unidade original entre homem e mulher. A partir da unidade original o homem descobre a comunhão de pessoas e sua transcendência (não pode fechar-se em si). Diante da opção de comer ou não o fruto da árvore do bem e do mal, se descobre capaz de autodeterminação.

Deus é amor, e o ser humano é imagem e semelhança de Deus. O corpo humano (masculinidade e feminilidade) manifesta a comunhão entre homem e mulher, sua capacidade de exprimir o amor. Tal significado determina a atitude, isto é, o modo de viver o corpo.

Ü Como é que vivemos o amor no nosso corpo? Ainda nos enxergamos como “imagem e semelhança de Deus” ou só como locais de experiências científicas?

O encontro com Cristo nos convida a escolher a vida: uma postura de acolhida. O modo de ser de Cristo no Evangelho é marcado por um amor profundo para com todos que O procuram. Essa postura de acolhida está na base de todos os relacionamentos vividos por Cristo. A postura do aborto ou da eutanásia são posturas de não-acolhida à vida. A vida (a pessoa humana) fica sujeita a “uma prova” (testes genéticos, aptidão física, etc.) e só será aceita se passar (não “dificultará” a vida dos demais).

Uma postura de não-acolhida, contrária ao exemplo de Cristo, tende a gerar realidades cada vez menos acolhedoras e mais violentas. Ela implica na censura de um desejo de bem, de dar e receber amor, que está no coração de cada um.

A postura de acolhida incondicional, ainda que com dor e sofrimento, é a mais adequada à nossa humanidade. O seguimento de Jesus não violenta, mas – pelo contrário – exalta nossa humanidade.

A lógica da acolhida, do amor ao próximo, atinge seu vértice na figura do Bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas, que, tendo cem ovelhas, vai em busca da única perdida. Aqui, a lógica da acolhida nos escandaliza! Não parece justo que o bom se sacrifique pelos maus, nem que o pastor deixe as ovelhas desprotegidas para buscar a única perdida!

Contudo, a atitude de Jesus condiz profundamente com o desejo maior de nosso coração. Todos nós ansiamos por esse amor incondicional e gratuito por nossa pessoa.

Ü Quantas vezes temos nossas fraternidades cheias de irmãos, mas, mesmo assim, nos preocupamos com aqueles que estão faltando? Qual a importância do SEI na relação fraterna?

O encontro com Cristo nos convida a escolher a vida: a dignidade da pessoa. Com seu amor, Cristo anuncia a dignidade única de cada pessoa humana. Somos amados de modo especial, de modo único, não somos apenas parte da multidão, temos um valor único e irrepetível. A experiência da dignidade inerente à pessoa nasce em nós a partir da experiência de sermos amados. Cada um(a) é especial, é parte desta grande Família Franciscana, tem uma função, nem que seja somente se fazer existir e lembrar. Uma pessoa que não fez a experiência de ser amada não perde a sua dignidade natural, mas terá muito mais dificuldade de perceber-se dotada dessa dignidade. Ao que nós, enquanto família, temos o dever de não esquecer de termos amor incondicional por todos(as) das nossas fraternidades. Na família a criança faz sua primeira experiência de ser amada, compreende seu valor como pessoa e sua dignidade. Na OFS, ao longo de nossa caminhada formativa, somos crianças, adolescentes, adultos e idosos, SOMOS franciscanos para a vida inteira, e uma vida de conversão.

A percepção dessa dignidade que não pode ser tirada é natural a cada um, mesmo que de forma confusa ou parcial. Com o cristianismo, essa percepção se difunde e atinge sua consciência plena.

Para nós, cristãos, seguir a Cristo implicou e implica reconhecer a dignidade da pessoa e o valor da vida:

convidando os maridos a serem fiéis a suas esposas como Cristo o foi à Sua Igreja;

defendendo que os escravos fossem tratados como irmãos em Cristo;

reconhecendo a unidade entre todos os batizados;

incentivando o cuidados com os pobres e desamparados;

anunciando o valor da caridade.

Desde cedo, os cristãos se posicionaram contra o aborto, reconhecendo a dignidade do embrião humano. Santo Tomás de Aquino considera que existe o aborto a partir do momento em que a alma entra no feto, porém, pelo que sabia sobre biologia, isso não ocorreria no momento da fecundação. Francisco e Clara, nossos modelos de vida santa sobre a Terra, consideravam a vida um bem tão precioso que preservavam até os insetos da morte…

Os documentos da Igreja são instrumentos de trabalho preciosos, mostram que a Igreja é viva e dinâmica, interagindo sempre com a realidade que a circunda. E as CCGG servem de orientação para a vida evangélico-apostólico-secular da OFS, além das Fontes Francisclarianas e da nossa Regra e Vida aprovada pelo Papa.

Ü Será que podemos hoje nos atrever a dizer o que é ‘conversão’ para a OFS e quais as maneiras de vivermos essa nova condição de vida todo dia?

Boa Reflexão!!!

Ana Cristina Opitz

Mestre de Formação Regional Sul3



 

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