Deu na Adital:
Selvino Heck*

Selvino Heck

Soube da tua doença no Dia das Mães, 11 de maio, na devoção de domingo na igreja São Luiz, Santa Emília, Venâncio Aires, Rio Grande do Sul. Fizeram uma prece por ti, por tua saúde. Perguntei ao teu cunhado Celso Picinini, que estava do meu lado, o que estava havendo. Me disse que estavas com hepatite B, incubada faz anos, cujos efeitos começaram a se fazer sentir há algum tempo, fizeste exames, nada revelaram, até fazer o de hepatite B, e aí descobriram que o fígado já estava contaminado, o câncer se espalhara.

Não acreditei. Como pode, meu Deus? Como aceitar isso, uma doença que agora se descobre como que vindo do nada? Alguém jovem, pouco mais de sessenta anos, cheio de vida, que celebrou casamentos este ano onde estive presente, como os da sobrinha Cíntia e do Pingüim, como sempre todo alegre, as pessoas querendo te ouvir, beber tuas palavras ditas de um jeito todo especial, que só tu tinhas capacidade de dizer.

Busquei teu telefone com a mana Lourdes e te telefonei no mesmo dia. Estavas conformado e ao mesmo tempo alegre, dizendo que estavas tranqüilo, já tinhas feito na vida o suficiente, agora estava tudo nas mãos de Deus, eu não querendo acreditar, não podendo acreditar. Como agora não estou acreditando, duas semanas depois, 26 de maio, à noite, quando recebi a notícia do teu falecimento e comecei a escrever estas mal traçadas, chorosas e saudosas linhas. (Não sei se conseguirei dormir, quero chorar, estou sozinho, o que me salva é escrever).

Sábado seguinte, 17, dia da Solidariedade no Rio Grande do Sul, te visitei na comunidade dos freis na Morada do Vale III em Gravataí. Te conhecendo, resolvi levantar teu astral, embora sabendo da gravidade da situação, tu magro, sem vontade de comer, apenas um ovo depois de eu e os freis terminarmos o almoço. Falamos bastante sobre a vida, o governo Lula, a ministra Dilma, perguntaste sobre a Marta, minha ex-mulher, onde estava, o que fazia. E entregavas tudo nas mãos de Deus e de São Francisco. Te respondi, nada disso, precisamos de ti. Na saída, falei com o Frei Orestes, teu guardião, me disse que tivera uma conversa séria contigo. Reagiste positivamente, buscando remédios e perguntando por alternativas de tratamento.

Na quinta, Corpus Christi, soube que estavas no hospital, muito inchado. No encontro estadual do Movimento Fé e Política do Rio Grande do Sul, dediquei minha fala sobre as razões da fé e da militância a ti e ao Dr. Celso Gaiger, outro lutador, que falecera no dia anterior.

A tristeza e inconformidade com tua morte prematura não é por sermos primos e nossas famílias morarem 200 metros uma da outra, em Santa Emília. Vem porque, quando foste para o Seminário em Taquari alguns anos antes de mim. já eras referência. Vem porque foste pioneiro no trabalho de pastoral popular nas vilas da Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre, no início dos anos setenta, quando isso era ousado, revolucionário. Viver em comunidade no meio do povo trabalhador, nas periferias, em casa igual a eles, fora de conventos, sem a estrutura institucional de uma paróquia, reunindo grupos de família em torno do Evangelho, ajudando-os a se organizar em busca dos seus direitos e melhor qualidade de vida.

Quando fui morar contigo em 1977, na parada 13, rua São Pedro da vila São Pedro, na verdade aprendi tudo: a cozinhar, a lavar a roupa, a ouvir as pessoas, a amar quem luta todos os dias para sobreviver e dar de comer à sua família, a unir a fé e a política na prática da vida, a tentar viver os valores evangélicos e franciscanos.

(Quando cheguei na Lomba do Pinheiro, na casa dos freis, não sabia cozinhar um ovo frito, coar um café, fazer um chimarrão, nada, nada. Ordem de Frei Arno: “Aqui todo mundo cozinha, em rodízio, e todo mundo come seja o grude que for sem reclamar”. Assim, aprendi a cozinhar feijão, a fazer um arroz que não fique empapado, a temperar uma carne. É o que tem me salvado ao longo do tempo, quando casei, me separei e moro sozinho há muitos anos.)

Eras um igual, mesmo quando viraste provincial dos franciscanos do Rio Grande do Sul. Depois, te tornaste vigário na paróquia São Francisco, bairro Santana, Porto Alegre. E agora, com toda alegria e simplicidade, foste morar no meio do povo trabalhador mais sofrido, em Gravataí, junto com jovens frades, como se frade jovem fosses, e o eras de fato.

Nunca me esqueço de uma coisa que disseste em alemão à tua mãe, minha tia Bertha, quando te tornaste definitivamente franciscano: “Agora, mamãe, deixo de ser teu filho para ser filho de Francisco. Por isso, não esperes que eu te visite sempre ou seguido”. E assim fizeste.

Não deu tempo para estar no teu velório e enterro no Convento São Boaventura em Daltro Filho. Mas sei que estás no meu coração, como estás no coração do povo de Santa Emília, do Pinheiro, do bairro Santana e da Morada do Vale II, dos frades, não só os do Rio Grande do Sul.

É difícil aceitar. Dá vontade de dizer um palavrão pra Deus e perguntar se ele sabe mesmo o que faz. Teu exemplo, tua vida de fé, teu compromisso franciscano com os pobres, com a justiça permanecerão sempre vivos, muito vivos, totalmente vivos.

Saudações, até a próxima. E me permita, do teu sempre confrade Selvino.

* Assessor Especial do Presidente da República. Fundador e Coord. do Movimento Fé e Política
Extraído de http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=33272

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