Amados irmãos e irmãs da OFS do Rio Grande do Sul, estamos iniciando uma nova etapa na Formação permanente. Inicio agradecendo a confiança depositada em mim no último Capítulo Eletivo, em maio deste ano, para cumprir com mais este serviço na OFS Regional e espero retribuir as expectativas depositadas em mim.

Em nossa primeira reunião de Conselho, em julho de 2007, escolhemos um tema a ser tratado a partir deste ano no Boletim Regional Sul 3: a conversão. Sugiro tomar apenas por base o artigo aqui encartado, pois o aprofundamento deverá ser feito pelo responsável pela Formação da Fraternidade Local nas devidas bibliografias franciscanas. A partir de agora, as reflexões sobre o tema CONVERSÃO: o carisma de Francisco e dos Franciscanos, com o lema “Percorrendo as páginas do Testamento de Francisco”, será apresentado de forma a facilitar o estudo nas reuniões fraternas. Para tanto, este artigo será dividido em encontros organizados, que deverão ser estudados previamente pelo Mestre de Formação, de modo a conduzir com sabedoria e humildade as discussões que advirem. Só para lembrar, os materiais que serviram de base foram a Regra & Vida da OFS e o Testamento de Francisco, este último pode ser encontrado nas Fontes Franciscanas e Clarianas.

Seguindo instruções acordadas anteriormente para a Formação na Área Sul, as Reuniões Fraternas Locais deverão assim ser organizadas: 1) Espiritualidade (Ofício do Franciscano Secular, leitura do Evangelho e homilia do Assistente Espiritual); 2) Canto franciscano; 3) Reflexão e Testemunho (é o momento do Mestre de Formação juntamente com os coordenadores do COODHJUPIC e do SEI conduzirem o tema do encontro); 4) Informes Gerais (Secretaria, Tesouraria, etc.); 5) Oração do Franciscano Secular e Confraternização.

ENCONTRO 1

Iniciemos a nossa reflexão pela leitura da Regra & Vida, art.7:

7. Como “irmãos e irmãs de penitência”, em virtude de sua vocação, impulsionados pela dinâmica do Evangelho, conforme o seu modo de pensar e de agir ao de Cristo, mediante uma radical transformação interior que o próprio Evangelho designa pelo nome de “conversão” a qual, devido à fragilidade humana, deve ser realizada todos os dias. Neste caminho de renovação, o sacramento da Reconciliação é sinal privilegiado da misericórdia do Pai e fonte de graça.

Este artigo é o coração desta segunda parte da Regra. Conversão significa uma radical transformação interior, jamais alcançada plenamente, ou seja, temos que buscar incessantemente essa transformação todos os dias de nossa passagem pela Terra. Devemos estar sempre em processo de superação de nós mesmos, tentando fugir do pecado, da indiferença que anestesia a consciência, da cegueira que impede ver as iniciativas santas possíveis. Para Francisco, converter-se é amar plenamente, à medida de deus e de seu Filho Jesus Cristo. Então se poderá dizer: “Tu és o Bem, todo o Bem, o Sumo Bem!”. Quem não coloca Deus no centro de sua vida, acabará substituindo-O por outros deuses (coisas): faz de alguma coisa sua grande segurança, a qual, mais dia menos dia, mostrará que é só uma sensação passageira. Só há felicidade plena e segura em Deus.

A Conversão Diária é a mola propulsora da fé de Francisco e Clara, assim como o deve ser para nós, seus seguidores. Das recordações mais queridas e inesquecíveis da vida do nosso Pai Seráfico, como o beijo ao leproso, a fé nas igrejas pequeninas e nos sacerdotes pobrezinhos, os irmãos e a regra de vida que o Senhor lhe concedeu, Francisco passa, em seu Testamento, para a confirmação de todo o seu propósito, o qual deve ser também o propósito de todos os seus irmãos: como peregrinos e forasteiros, viver na santa pobreza e na obediência de NSJC, observando com santa afeição e até o fim a Regra e a Vida do Evangelho de JC.

Nos seus testamentos, Francisco recorda, isto é, conduz de novo ao centro, ao coração do seu interesse, o toque divino de toda a sua conversão e, pela última vez, isto é, de modo consumado, com profunda gratidão, faz jorrar para si e para todos os seus seguidores a água viva da fonte originária da vocação franciscana. Por isso, no fim, na terna brandura e afeição da perfeita alegria da consumação, conclui: E todo aquele que observar estas coisas seja no céu repleto com a bênção do altíssimo Pai, e na terra, repleto com a bênção do seu dileto Filho, com o santíssimo Espírito Paráclito e com todas as virtudes dos céus e com todos os santos. E eu, frei Francisco, pequenino, vosso servo, por tudo quanto posso, vos confirmo dentro e fora esta santíssima bênção. (Testamento, 40-41)

Neste ano, a OFS está em festa pelos 800 anos do nascimento da nossa padroeira, Santa Isabel da Hungria, em 17 de novembro de 1207. Nada mais coerente do que aprofundar o nosso tema da conversão conhecendo ainda mais sobre a vida de conversão diária da nossa ilustre irmã em Francisco e Clara de Assis. Aí vai uma pequena biografia que pode ser seguida de uma reflexão sobre seu exemplo de santidade para nós, franciscanos seculares.

SANTA ISABEL DA HUNGRIA, padroeira da Ordem Terceira

Diz a lenda que Isabel foi invocada mesmo antes de nascer. Um vidente anunciou seu glorioso nascimento como estrela que nasceria na Hungria, passaria a brilhar na Alemanha e se irradiaria para o mundo. Citou-lhe o nome, como filha do rei da Hungria e futura esposa do soberano de Eisenach (Alemanha).

De fato, como previsto, a filha do rei André, da Hungria, e da rainha Gertrudes, nasceu em 1207. O batismo da criança foi uma festa digna de reis. E a criança recebeu o nome de Isabel, que significa repleta de Deus.

Ela encantou o reino e trouxe paz e prosperidade para o governo de seu pai. Desde pequenina se mostrou de fato repleta de Deus pela graça, pela beleza, pelo precoce espírito de oração e pela profunda compaixão para com os sofredores.

Tinha apenas quatro aninhos quando foi levada para a longínqua Alemanha como prometida esposa do príncipe Luís, nascido em 1200, filho de Hermano, soberano da Turíngia. Hermano se orientava pela profecia e desejava assegurar um matrimônio feliz para seu filho.

Dada a sua vida simples, piedosa e desligada das pompas da corte, concluíram que a menina não seria companheira para Luis. E a perseguiam e maltratavam, dentro e fora do palácio.

Luis, porém, era um cristão da fibra do pai. Logo percebeu o grande valor de Isabel. Não se impressionava com a pressão dos príncipes e tratou de casar-se quanto antes. O que aconteceu em 1221.

A Santa não recuava diante de nenhuma obra de caridade, por mais penosas que fossem as situações, e isso em grau heróico! Certa vez, Luis a surpreendeu com o avental repleto de alimentos para os pobres. Ela tentou esconder… Mas ele, delicadamente, insistiu e … milagre! Viu somente rosas brancas e vermelhas, em pleno inverno. Feliz, guardou uma delas.

Sua vida de soberana não era fácil e freqüentemente tinha que acompanhar o marido em longas e duras cavalgadas. Além disso, os filhos, Hermano, de 1222; Sofia, de 1224 e Gertrudes, de 1227.

Estava grávida de Gertrudes, quando descobriu que o duque Luis se comprometera com o Imperador Frederico II a seguir para a guerra das Cruzadas para libertar Jerusalém. Nova renúncia duríssima! E mais: antes mesmo de sair da Itália, o duque morre de febre, em 1227! Ela recebe a notícia ao dar à luz a menina.

Quando Luis ainda vivia, ele e Isabel receberam em Eisenach alguns dos primeiros franciscanos a chegar na Alemanha por ordem do próprio São Francisco. Foi-lhes dado um conventinho. Assim, a Santa passou a conhecer o Poverello de Assis e este a ter freqüentes notícias dela. Tornou-se mesmo membro da Família Franciscana, ingressando na Ordem Terceira que Francisco fundara para leigos solteiros e casados. Era, pois, mais que amiga dos frades. Chegou a receber de presente o manto do próprio São Francisco!

Morto o marido, os cunhados tramaram cruéis calúnias contra ela e a expulsaram do castelo de Wartburgo. E de tal forma apavoraram os habitantes da região, que ninguém teve coragem de acolher a pobre, com os pequeninos, em pleno inverno. Duas servas fiéis a acompanharam, Isentrudes e Guda.

De volta ao Palácio quando chegaram os restos mortais de Luís, Isabel passou a morar no castelo, mas vestida simplesmente e de preto, totalmente afastada das festas da corte. Com toda naturalidade, voltou a dedicar-se aos pobres. Todavia, Lá dentro dela o Senhor a chamava para doar-se ainda mais. Mandou construir um conventinho para os franciscanos em Marburgo e lá foi morar com suas servas fiéis. Compreendeu que tinha de resguardar os direitos dos filhos. Com grande dor, ela confiou os dois mais velhos para a vida da corte. Hermano era o herdeiro legitimo de Luis. A mais novinha foi entregue a um Mosteiro de Contemplativas, e acabou sendo Santa Gertrudes! Assim, livre de tudo e de todos, Isabel e suas companheiras professaram publicamente na Ordem Franciscana Secular e, revestidas de grosseira veste, passaram a viver em comunidade religiosa. O rei André mandou chamá-las, mas ela respondeu que estava de fato feliz. Por ordem do confessor, conservou alguma renda, toda revertida para os pobres e sofredores.

Construiu abrigo para as crianças órfãs, sobretudo defeituosas, como também hospícios para os mais pobres e abandonados. Naquele meio, ela se sentia de fato rainha, mãe, irmã. Isso no mais puro amor a Cristo. No atendimento aos pobres, procurava ser criteriosa. Houve época, ainda no palácio, em que preferia distribuir alimentos para 900 pobres diariamente, em vez de dar-lhes maior quantia mensalmente. É que eles não sabiam administrar. Recomendava sempre que trabalhassem e procurava criar condições para isso. Esforçava-se para que despertassem para a dignidade pessoal, como convém a cristãos. E são inúmeros os seus milagres em favor dos pobres!

De há muito que Isabel, repleta de Deus, era mais do céu do que da terra. A oração a arrebatava cada vez mais. Suas servas atestam que, nos últimos meses de vida, frequentemente uma luz celestial a envolvia. Assim ela chegou serena e plena de esperança à hora decisiva da passagem para o Pai. Recebeu com grande piedade os sacramentos dos enfermos. Quando seu confessor lhe perguntou se tinha algo a dispor sobre herança, respondeu tranqüila: “Minha herança é Jesus Cristo!” E assim nasceu para o céu! Era 17 de novembro de 1231.

Sete anos depois, o Papa Gregório IX, de acordo com o Conselho dos Cardeais, canonizou solenemente Isabel. Foi em Perusa, no mesmo lugar da canonização de São Francisco, a 26 de maio de 1235, Pentecostes. Mais tarde foi declarada Padroeira das Irmãs da Ordem Franciscana Secular.

Reflexão: 1) Por que devemos procurar a conversão diária? 2) Qual é a relação existente entre conversão e penitência? 3) Qual é o lugar da Fraternidade na minha vida? 4) Como foi a conversão da padroeira da OFS? 5) Em que Santa Isabel da Hungria é um modelo para a minha vida?

ENCONTRO 2

É bom reler os artigos 6 e 7 da Regra e Vida antes de dar continuidade ao nosso tema. Sobre o assunto, o Testamento de Francisco (1-3):

“O Senhor deu a mim, frei Francisco, começar a fazer penitência assim: pois, como estivesse em pecados, parecia-me demasiadamente amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu entre eles e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo, se me converteu em doçura da alma e do corpo; e, em seguida, me detive por um pouco e saí do século.”

Para Francisco, a conversão significa “fazer penitência”, isto é, passar “da vida em pecado” ao “fazer penitência”, o que quer dizer afastar-se do pecado. É esta reviravolta que transforma o amargor de ver os leprosos em doçura da alma e do corpo. Não podemos esquecer que isto levou aproximadamente quatro anos para acontecer, ou seja, a conversão foi um processo lento para Francisco, e seu Testamento foi ditado somente vinte anos depois do fato ocorrido.

Comentando os artigos lidos, que falam da conversão batismal e da evangélica, Beckhäuser (1996) assim fala:

Penitência e Conversão – Trata-se de um elemento essencial da vida cristã e especialmente da vocação franciscana. Neste número os franciscanos seculares são chamados de ‘irmãos e irmãs da penitência’. É isto que os distingue dos irmãos menores da Ordem I e das irmãs pobres da Ordem II. Eles e elas não são chamados de irmãos menores ou de irmãs pobres, mas de irmãos e irmãs da penitência. Penitência aqui não no sentido que em geral se dá à palavra penitência, como mortificação, mas penitência no sentido bíblico, como ‘conversão’, ou, como diz a Regra, como ‘uma radical transformação interior, que consiste em ‘conformar o seu modo de pensar e de agir ao modo de pensar e agir de Cristo’.”

O homem, um ser chamado à conversão – O homem é um ser chamado à conversão pela própria vocação de criatura. Criado à imagem e semelhança de Deus, ele é chamado à comunhão eterna de amor, de vida e de felicidade com Deus. Isso exige que ele seja um eterno ‘procurador’ de Deus, vivendo como filho ou sacerdote, à luz da fé; vivendo como senhor da criação, sem se escravizar a ela, na virtude da esperança, porque estará sempre ao encalço do próprio Bem, que é Deus; vivendo como profeta, no amor para com o próximo, refletindo desta forma o Amor, que é Deus, e apontando para Ele. O homem é chamado a ser uma criatura voltada (convertida) para Deus diretamente, sobretudo pela oração; através das criaturas, como senhor, e através do próximo, como irmão, na comunidade conjugal, na comunidade familiar e na comunidade social.” (p.62)

Reflexão:1) Qual a importância do fato narrado por Francisco em seu Testamento? 2) Quem é o leproso de hoje? 3) Por que motivo somos chamados de ‘irmãos e irmãs da penitência’? 4) Como é entendida a conversão pelas outras crenças em comparação com o franciscanismo? 5) Quando e por que o homem é chamado à conversão?

Bibliografia consultada:

Beckhäuser, Frei Alberto. Comentário Espiritual à Regra da Ordem Franciscana Secular, Petrópolis: Vozes, 1996.

ENCONTRO 3

Pelo que estudamos até aqui, o mandamento maior a ser seguido é o do Amor, que é Deus. A adoração ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia vivida por Francisco nos transmite esperança e fé em um porto seguro, o Cristo ressuscitado, a prova de Amor verdadeiro do nosso Pai conosco. Lendo os artigos 4 e 5 da Regra e Vida, Frei Dorvalino Fassini (2007) assim comenta:

“Para sermos uma Família espiritual, isto é, uma Família que nasce e vive a partir do Espírito, é normal que nos tornemos sempre mais e melhores observadores do Evangelho de Jesus Cristo no exemplo de Francisco.” (p.102) Para ele, observar o Evangelho tem mais de um sentido. Ler assiduamente o Evangelho significa “todo um empenho de investigá-lo, descobri-lo e amá-lo, (…)” E fala do empenho de Maria, em Lucas, “quando diz que ela observava e guardava todas estas coisas no seu coração.” Então explica: “guardar, significa, aqui, pensar, meditar, considerar com fé e amor tudo o que nos advém e acontece, tanto a nós, individualmente, como aos que nos cercam. (…) É o que pede a Regra quando diz que devemos procurar a pessoa vivente e operante de Cristo nos irmãos, na Sagrada Escritura, na Igreja e nas ações litúrgicas. Hoje a Igreja expressa essa busca com a conhecidíssima expressão: estar atento aos sinais dos tempos.” Ainda diz que ser observador do Evangelho “significa também ser seu cumpridor e realizador.” (p. 103) Que Ele “será nossa Forma de Vida, isto é, nosso caminho, nossa verdade e nossa vida.” Que isso “significa proclamar que Ele deve ser a essência, o coração e a razão de todo o nosso ser e viver. Nosso amor primeiro, único e último, no qual e pelo qual haveremos de amar todas as demais criaturas.” Ser um observador é “ser um seguidor e imitador de Jesus Cristo ou, como Ele mesmo gostava de chamar, um discípulo.” (p.104)

Em seu Testamento (14-19), São Francisco diz o que aconteceu consigo e qual foi a sua Forma de Vida:

“E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrava o que deveria fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho. E eu o fiz escrever com simplicidade e com poucas palavras e o senhor Papa mo confirmou. Os que vinham para receber esta vida davam aos pobres tudo o que podiam ter; e estavam contentes com uma só túnica, remendada por dentro e por fora, com um cíngulo e bragas[1]. E mais não queríamos ter. Nós, clérigos, rezávamos o Ofício como os outros clérigos; os leigos rezavam o Pai Nosso; e de muito boa vontade ficávamos nas igrejas. E éramos idiotas e súditos a tudo.”

Reflexão: 1) Qual era a Forma de Vida de Francisco? 2) Onde está a pessoa vivente e operante de Cristo nos dias de hoje? 3) O que é ser um observador do Evangelho de Jesus Cristo no exemplo de Francisco? 4) Quais são as nossas ações litúrgicas na Igreja e na sociedade? 5) O que é ser um discípulo na OFS?

Bibliografia consultada:

Fassini, Frei Dorvalino. Franciscano Secular: Vida e Regra, Porto Alegre: Província São Francisco de Assis, 2007.

ENCONTRO 4

Baseados no Mandamento maior, o Amor, os franciscanos obedeçam a Santa Igreja e seus representantes, os sacerdotes, adorando-os como representantes de Deus, de fato e de direito, na Terra. Assim nos dita o Capítulo II da nossa Regra, em especial, o artigo 10. A partir daí, que se reflita o venerável respeito de Francisco pela Igreja e pelos Sacerdotes em seu Testamento (4-13):

“E o Senhor me deu tal fé nas igrejas para rezar e dizer simplesmente assim: Nós te adoramos Senhor Jesus Cristo, em todas as tuas igrejas, que estão no mundo inteiro, e te bendizemos porque pela tua santa cruz redimiste o mundo. Depois, o Senhor me deu e me dá tanta fé nos sacerdotes, que vivem segundo a forma da santa Igreja Romana, por causa da ordem dos mesmos, que se me perseguirem, ainda assim, quero recorrer a eles. E se tivesse tanta sabedoria quanta teve Salomão e encontrasse sacerdotes pobrezinhos deste século, nas paróquias onde moram, não quero pregar além da vontade deles. E a ele e a todos os outros quero temer, amar e honrar como meus senhores. E neles não quero considerar pecado, porque neles diviso o Filho de Deus, e são meus senhores. E assim o faço porque nada vejo corporalmente do próprio altíssimo Filho de Deus, neste século, senão o santíssimo corpo e o seu santíssimo sangue que eles mesmos recebem e somente eles ministram aos outros. E esses santíssimos mistérios quero honrar, venerar acima de todas as coisas e colocar em lugares preciosos. Onde quer que eu encontre os santíssimos nomes e suas palavras escritas em lugares ilícitos, quero recolhê-los. E rogo que sejam recolhidos e colocados em lugar honesto. E devemos honrar e venerar todos os teólogos e os que nos ministram as santíssimas palavras divinas como aqueles que nos ministram espírito e vida.”

Reflexão: 1) Como foi a obediência redentora de Jesus? 2) O que a Regra nos pede é só a obediência? Explique. 3) De onde vem a fé de Francisco na Igreja e nos sacerdotes? 4) Por que Francisco quer temer, amar e honrar como seus senhores os sacerdotes? 5) Compare o respeito de Francisco aos sacerdotes com o que temos aos mesmos hoje em dia. O que mudou? Por quê?

ENCONTRO 5

Estudamos até agora Conversão e Penitência. Nada melhor do que dar uma parada e reler o Prólogo da Regra e Vida dos Franciscanos Seculares: dos que fazem e dos que não fazem penitência.

Reflexão: 1) O que é uma exortação? Por que Francisco se dá o direito de exortar seus irmãos? Qual sua intenção ao fazê-lo? 2) Por que a Carta de Francisco está assim dividida? 3) Por que essa Carta vem antes da Regra propriamente dita? 4) A base dessa Exortação está no Evangelho. O que o diferencia dos outros escritos da Bíblia? 5) Após a leitura do Prólogo, qual foi o entendimento recolhido do que foi estudado até agora? O que posso levar para a minha vida de secular hoje?


[1] Cíngulo: cordão com que o sacerdote aperta a alva em torno da cintura; cinto. Alva: antiga veste de pano branco; túnica branca. Bragas: argolas de ferro que prendiam a grilheta à perna. Grilheta: grande anel de ferro na extremidade de uma corrente.

ENCONTRO 6

Após sua conversão, Francisco começou a traçar algumas diretrizes do seu carisma para os irmãos recém-chegados na Ordem. Vejamos no seu Testamento (20-26):

“E eu trabalhava com minhas mãos e quero trabalhar; e quero firmemente que todos os outros irmãos labutem num labor pertinente à honestidade. Os que não sabem trabalhar o aprendam, não pela cobiça de receber a recompensa do trabalho, mas por causa do exemplo e para repelir a ociosidade. E se não nos derem a recompensa do trabalho, recorramos à mesa do Senhor, pedindo esmola de porta em porta. O Senhor me revelou que disséssemos a saudação O Senhor te dê a paz. Cuidem-se os irmãos de receber, de modo algum, igrejas, pequenas e pobres habitações e tudo o que for construído para os irmãos, a não ser que sejam como convém à santa pobreza, que prometemos na regra, hospedando-se sempre aí como estrangeiros e peregrinos. Ordeno firmemente pela obediência a todos os irmãos, onde estiverem, que não ousem pedir algum rescrito à cúria Romana, nem através de si ou de pessoa intermediária, nem em favor de uma igreja, ou de outro lugar, nem em vista de pregação, nem diante da própria perseguição corporal. Mas, onde não forem recebidos, fujam para outra terra, para fazer penitência com a bênção de Deus.”

Após lermos o capítulo 2 da Regra e Vida e este trecho do Testamento de Francisco, podemos exaltar aqui a santa pobreza, o desapego aos bens materiais da regra 11, a pureza de coração e a liberdade para amar a Deus da regra 12, a acolhida a todos os irmãos e o senso de fraternidade da regra 13, o chamado às responsabilidades no espírito cristão de serviço da regra 14, o testemunho da justiça da regra 15, e, enfim, o estímulo ao trabalho da regra 16.

Para BECKHÄUSER (1996), dentro da perspectiva de Francisco, o trabalho apresenta 4 dimensões: 1) “O trabalho é um dom (…). O trabalho não é um castigo, mas presente de Deus, (…)”; 2) “Pelo trabalho, o homem se torna participante da obra de Deus, da criação”; 3) “Pelo trabalho, Jesus procurou cumprir a vontade do Pai”; 4) “Se o trabalho de Cristo foi redentor, então, também, o trabalho dos cristãos, realizado em comunhão com Cristo, se torna redentor. Redentor porque transformado em serviço ao próximo.” Dessa maneira, o trabalho “chega mesmo a transformar-se numa oração-devoção, numa ação de graças a Deus e ao próximo. Podemos, então, trabalhar com liberdade, sabendo que é uma das dimensões da vida do homem.” (p.100-101)

Reflexão: 1) Qual a relação entre trabalho e esmola na época de Francisco e atualmente? 2) Há “irmão-mosca” em nossa fraternidade? Por quê? 3) Qual era o medo de Francisco para ordenar que os frades não tivessem teto sobre suas cabeças? 4) O que me motiva a trabalhar? 5) Encontro as 4 dimensões da perspectiva de Francisco sobre o trabalho em minha vida?

ENCONTRO 7

Já estudamos que o trabalho é um dom, logo devemos estar alegres todos os dias por termos uma missão na sociedade. Como já é de conhecimento público, a marca registrada dos franciscanos, seu carisma, é a alegria. E esta alegria está na Regra 19, é de obediência cumpri-la. Assim como a oração (regra 8). Ora et labora. Quem já não ouviu está máxima romana? Quem sabe aí está o segredo de Francisco. Vejamos em seu Testamento (27-34):

“E quero obedecer firmemente ao ministro geral desta fraternidade e ao guardião que lhe aprouver dar-me. E quero estar cativo em suas mãos assim que não possa ir ou fazer além da obediência e da sua vontade, porque ele é o meu senhor. E ainda que simples e enfermo, quero, todavia, ter sempre um clérigo que me reze o ofício, como está contido na regra. E todos os irmãos e a rezar o ofício segundo a regra. E se encontrarem irmãos que não rezam o ofício conforme a regra e querem variá-lo de outro modo e não forem católicos, então, todos os irmãos, onde quer que se acharem, estejam obrigados pela obediência, lá onde depararem com um deles a apresentá-lo ao custódio mais próximo daquele lugar. E o custódio esteja firmemente obrigado por obediência a guardá-lo fortemente, dia e noite, como um prisioneiro, de tal modo que não possa arrancar-se de suas mãos, até que o apresente pessoalmente às mãos de seu ministro. O ministro, então, esteja firme na obrigação de enviá-lo por obediência através de tais irmãos que, dia e noite, o guardem como um prisioneiro, até apresentarem-no ao senhor da Óstia, senhor, protetor e corretor de toda a fraternidade. E não digam os irmãos: Esta é outra regra! Pois, esta é a recordação, a admoestação, a exortação e o meu testamento, que eu, frei Francisco pequenino, faço a vós, meus irmãos benditos para que mais catolicamente observemos a regra que prometemos ao Senhor.”

Francisco era conhecido como o santo de atitudes radicais… Se estudarmos a época em que viveu, compreenderemos o porquê ele era assim, tudo foi necessário para que a Ordem tivesse continuidade, para que seu carisma permanecesse entre nós por mais de 800 anos. O que é fundamental ressaltarmos neste trecho é a importância de rezar o ofício segundo a regra; a expressão obrigado por obediência, que é mencionada várias vezes; as palavras irmãos e ministro geral da fraternidade, também muito repetidas; e a menção ao senhor da Óstia, senhor, protetor e corretor de toda a fraternidade, colocada como chave de ouro desta admoestação. A leitura da Regra e do Evangelho de NSJC não é o suficiente para Francisco, é necessário rezar o Ofício. Nós temos o Devocionário Franciscano da OFS, a Primeira Ordem tem o dela (conhecido por nós de “tijolão”) e a Segunda, o dela também, cada um contendo o Ofício conforme a sua Regra e Vida. Não adianta trabalharmos sem orarmos, aí está a obrigatoriedade do Ofício mencionada por ele. Embora radical e modelo de intransigência diante dos valores da época, Francisco e Clara nunca desobedeceram à mãe Igreja, e assim o querem de nós. Dentro da hierarquia das fraternidades, havia o respeito ao Ministro Geral e, sobretudo, a Deus, representado pela figura do sacerdote e da Igreja Católica. Quanto à palavra irmãos, assim BECKHÄUSER (1996) interpreta:

“O amor, o carinho, a amizade, a solidariedade, a compaixão, o perdão, a misericórdia, o uso comum das coisas, a gratuidade, a sinceridade, a intimidade, o segredo, a igualdade, o respeito, o apreço, o reconhecimento das diferenças, o cuidado pelo mais necessitado. Todas estas são características de uma vida de irmãos e irmãs em família. São virtudes que deverão ser cultivadas dentro da Fraternidade, na família e na sociedade, pelos franciscanos seculares. Isso exige o viver à maneira de São Francisco, isso exige imitação de Jesus Cristo, isso exige penitência ou conversão, isso exige viver como irmãos e irmãs da penitência.” (p. 43)

Enfim, não há missão, trabalho na sociedade e com irmãos sem a conversão prévia, sem a alegria de estar servindo a Deus e à Igreja, sem a alegria de estar obedecendo: este é o carisma franciscano há 800 anos…

Reflexão: 1) Qual foi a tua primeira impressão depois de lido este trecho do Testamento? 2) Qual é a relação entre trabalho, alegria e obediência no franciscanismo? 3) Por que foi exaltada a importância de rezar o ofício segundo a regra ? 4) Qual a importância do trabalho para Francisco? Qual regra fala nisso? 5) O que é ser Católico Apostólico Romano e Franciscano?

Obs.: Preparar o encontro 8 neste encontro.

ENCONTRO 8

Através da leitura do Testamento de Francisco, podemos nos aproximar ainda mais da nossa Regra e Vida e do Evangelho de NSJC. Uma questão a ser explorada mais é a historicidade do discurso do nosso Pai Seráfico. Neste encontro, peço que o Mestre de Formação pesquise sobre a Igreja Católica na Europa nos séculos XII e XIII, exaltando alguns pontos: os costumes, a sociedade, os Papas e suas contribuições para a Igreja, as Cruzadas, o surgimento de ordens religiosas, a vida de conversão de Francisco e Clara de Assis. Seria interessante que se preparasse esse encontro no mês anterior, distribuindo tarefas, trechos a serem pesquisados e apresentados por todos os(as) irmãos(ãs) das fraternidades, não só o Mestre e o Ministro(a). Esses dados históricos podem ser achados em Enciclopédias, livros de História Geral (inclusive livros escolares), livros sobre a vida de São Francisco e de Santa Clara, internet e entre outros. Discutir esses dados em grupo.

Reflexão: 1) Qual foi o impacto causado pela conversão de Francisco e depois de Clara de Assis na sociedade da época? 2) Como se deu esses processos? 3) O que ficou mais claro após esta viagem no tempo? 4) Como foi o trabalho em grupo? 5) No que a Fraternidade está mudando com este trabalho de Formação?

ENCONTRO 9

Depois da leitura do Testamento (27-34), Francisco vai encaminhando a sua exortação para o fim (test35-39):

“O ministro geral e todos os demais ministros e custódios por obediência estão na obrigação de nada acrescentar a estas palavras nem tirar algo delas. E tenham sempre consigo este escrito junto à regra. E em todos os capítulos que fazem, quando lêem a regra, leiam também estas palavras. E ordeno firmemente por obediência a todos os meus irmãos, clérigos e leigos, que não façam glosas na regra nem nestas palavras dizendo: Assim devem ser entendidas. Mas, como o Senhor me deu dizer e escrever simples e puramente a regra e estas palavras, assim entendei-as de modo simples e sem glosas observai-as até o fim em santa obra.”

Já não é a primeira vez que Francisco nos fala de obediência (regra 10), mas agora ele dá especial realce à função de ministro geral, isto é, à organização interna de uma fraternidade (regra 21 a 26). Essa função é primordial para o bom andamento de uma fraternidade, é com ela que ele conta para que suas palavras não sejam modificadas, seu testamento não seja esquecido, seu carisma não fique apagado. A palavra Ordem, dada a um conjunto de irmãos que queria viver à maneira de São Francisco de Assis, não era gratuita, reflete como deve ser a vida de um franciscano, seja em que Ordem estiver, Primeira, Segunda ou Terceira. A obediência, segundo ele mesmo, não dá espaço a glosas!

Em sua obra, FASSINI (2007) nos esclarece o que seja a obediência franciscana:

“(…) indica o fenômeno da escuta, da audiência de quem foi tocado pela afeição da visita de Deus ou do seu encontro. Obediência franciscana ou evangélica, portanto, antes de uma faculdade ou iniciativa nossa é sempre graça suave e terna daquele que nos ama por primeiro. Por isso, a Sagrada Escritura sempre chama a obediência de bem-querer, como atesta claramente o salmista quando exclama: Não queres nem sacrifício nem oblação, mas me abriste o ouvido: foi-me prescrito no rolo do livro fazer teu bem-querer (Sl 40). Partindo da Sagrada Escritura, portanto, a obediência franciscana deve ser entendida como resposta ao bem-querer de Deus nosso Pai, sempre voltado e atento às mínimas aspirações e desejos de cada um de nós, seus filhos, e de cada uma de suas criaturas.” (p. 114)

Reflexão: 1) Qual é a função do Ministro segundo o Testamento de SF e a nossa Regra e Vida? 2) Para que serve o Conselho de uma Fraternidade? 3) Qual a relação entre obediência e carisma franciscano? 4) Qual é a resposta que o franciscano hoje dá ao bem-querer do Pai? 5) É possível obedecer com alegria? Por quê?

ENCONTRO 10

Neste último encontro, vamos ler uma passagem do Evangelho de NSJC sobre a conversão de Levi (Mt 9, 9-13; Mc 2, 13-17; Lc 5, 27-32), que pode ser encontrada nesses três evangelistas. Nesta passagem, Jesus é muito claro quanto a sua missão: “Não vim chamar justos, mas pecadores.” Se nos considerarmos normais, iguais a todo mundo, somos sim os pecadores a quem Ele veio chamar, a quem Francisco deixou seu Testamento. A conversão diária não é esporádica, como o nome já diz, ela é todo dia, permanentemente, até o dia da chegada da nossa irmã Morte. Francisco e Clara, em suas santas vidas, pediram inumeráveis vezes misericórdia para Deus, usaram a mortificação e a penitência como meio de chegarem perto da pureza de coração de NSJC, obedeceram e foram trabalhar com alegria para a edificação do Reino. E nós?

Reflexão: 1) Compare a conversão de Levi com outras mostradas no Evangelho. 2) Após a leitura do Evangelho e lembrando da conversão de Francisco, qual a conclusão a que podemos chegar? 3) Será que tenho feito a minha parte na Ordem e na Família franciscanas? 4) Vivo realmente o carisma franciscano? 5) Tenho o sentimento de pertença à OFS?

Bom trabalho!

Bons e fraternos encontros!!

Ana Cristina Opitz

Mestre de Formação Regional Sul 3

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