É preciso esclarecer essa questão. A mídia fala muito sobre isso, mas nós pouco procuramos por informações. Há exageros de ambos os lados, dos aliados e dos opositores, levando-nos a tirar conclusões precipitadas e a cometer injustiças. Após a análise deste quadro comparativo, deixo para os irmãos e irmãs a decisão de apoiar ou não o plantio de vastas áreas de eucalipto no nosso estado.

1) O solo plantado com eucalipto vira um deserto?

Não. O eucalipto utiliza os mesmos volumes de água de uma lavoura de café e muito menos que as plantações de cana-de-açúcar e arroz. A desertificação ocorre por questões climáticas aliadas às características de solo. Há que se ter um manejo adequado do solo e um planejamento adequado para a lavoura extensiva, além de um zoneamento agroecológico antes do plantio do eucalipto.

Sim. As plantações florestais de crescimento rápido, como o eucalipto, necessitam de muita água, por isso absorvem as chuvas e também a água do próprio solo, mesmo as suas raízes sendo muito pequenas. As plantas de eucalipto, após o primeiro ano, precisam de 30 litros de água por dia para crescer. Isso gera desequilíbrio hídrico na natureza. Outro indício da devastação e do desequilíbrio ambiental causados pelo plantio de eucalipto é o assoreamento dos rios, hoje praticamente secos, uma vez que a espécie consome muita água.

2) Há perigos de degradação do solo com a plantação exclusiva de eucaliptos numa mesma área?

Não. Esse risco não existe se forem utilizadas técnicas bem conhecidas de proteção do solo, como o preparo no sentido contrário à declividade e empregando técnicas adequadas para cada tipo de terreno. A abertura correta de estradas e carreadores (por onde os agricultores têm acesso à plantação) é fundamental para reduzir a erosão. Do ponto de vista da fertilidade, é preciso avaliar a necessidade de reposição de nutrientes de acordo com a reserva existente no solo e com o consumo de cada espécie de eucalipto. Qualquer cultura vegetal consome nutrientes do solo. E, se não há reposição adequada após a colheita, o solo levará muito tempo para voltar às suas características originais. Isso porque a água da chuva, que contém os nutrientes necessários ao solo, deposita-se gradualmente no terreno. Se a retirada desses nutrientes, através da produção de grãos ou de madeira, for mais rápida que a reposição pela chuva, haverá gradual empobrecimento do solo.

Sim. No Brasil, o eucalipto não cresce naturalmente e, plantado em larga escala, forma florestas homogêneas que garantem a viabilidade econômica. Após sete anos, as florestas são cortadas e o solo, já empobrecido, fica completamente exposto, sem cobertura vegetal. A falta d’água não aflige só os animais, como também impede a produção de qualquer tipo de alimento. O amendoim cresce raquítico, o feijão não se desenvolve, o milho não nasce, deixando claro que a improdutividade da terra generalizou-se.

3) O eucalipto pode conviver com outras culturas, sem prejudicar a biodiversidade?

Sim. Uma propriedade pode e deve contemplar múltiplas culturas, valendo-se de técnicas adequadas para cada uma. Além do consórcio com outros plantios, o eucalipto pode conviver bem com a criação de gado a partir de um ano de plantio. No caso de hortas, elas apenas precisam não estar à sombra do plantio florestal, já que essas espécies requerem sol pleno. Como o eucalipto leva, em média, 7 anos para ser colhido, é inclusive recomendável que os produtores tenham outras atividades econômicas em suas áreas neste período. Embora toda plantação homogênea tenha menos biodiversidade do que uma floresta natural, nas áreas da Aracruz a combinação dos plantios de eucalipto com remanescentes da Mata Atlântica assegura uma rica biodiversidade. Isso tem sido comprovado pelos resultados dos monitoramentos que vêm sendo realizados em uma micro bacia da Empresa. Os levantamentos até aqui identificaram 428 espécies de aves, das quais 18 se encontram ameaçadas de extinção, 45 são raras e 30 endêmicas. Ainda neste estudo, foram identificadas 145 espécies arbóreas em processo de regeneração no sub-bosque do eucalipto e 558 espécies arbóreas por hectare em áreas da floresta nativa. Estes números reforçam a importância da existência de áreas de preservação integradas aos plantios.

Não. A introdução do eucalipto impede que a vegetação natural (gramíneas e arbustos) se mantenha. Isso altera a dinâmica da vida dos animais no local. Nos bosques de eucalipto, só proliferam formigas e caturritas (aves predadoras de lavouras que usam as árvores de eucalipto como abrigo, mas não se alimentam delas). No Espírito Santo, onde há grandes plantações florestais de eucalipto, existe uma categoria de trabalhadores cuja profissão é matar formigas. O eucalipto é ainda mais perverso porque se trata de uma planta exótica, que não existia na região do Brasil. Como foi adaptada para germinar em solos tropicais, a seu redor não nasce mais nada. Os cientistas passaram a chamar o monocultivo de eucalipto de “Deserto Verde” – e não de floresta, uma vez que uma floresta significa diversidade de plantas e animais. No norte do Espírito Santo e no Sul da Bahia, as empresas de celulose compraram terras de centenas de médios e pequenos agricultores, destruíram a Mata Atlântica. Resultado: desapareceram centenas de variedades vegetais e dezenas de animais daquele meio.

4) A monocultura do eucalipto prevê uso de agrotóxicos? Quais as conseqüências disso?

Sim e não. O uso de defensivos agrícolas na silvicultura, ou plantio de árvores, é bastante reduzido em comparação ao da agricultura. Em algumas culturas agrícolas, como frutas cítricas e cana-de-açúcar, este consumo é 50 vezes maior do que o praticado nos plantios florestais. A utilização dos defensivos agrícolas está ligada ao grau de tecnologia da agricultura praticada em cada país. Em abril de 2003, o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Espírito Santo (Idaf-ES) realizou inspeções nas áreas de plantio de eucalipto da empresa nos municípios de Aracruz, Ibiraçu e São Mateus, para verificar quais produtos estão sendo usados pela empresa e as condições de aplicação, armazenamento e descarte de embalagens vazias. Nenhuma irregularidade foi constatada. A Aracruz utiliza defensivos agrícolas de forma responsável e cuidadosa, preferencialmente produtos da classe toxicológica IV (de tarja verde, pouco tóxicos), como o Scout, o Round-up e o Mirex-S. Todos são produtos NA (não agrícolas) licenciados pelo Ministério da Agricultura e pelo Ibama, de acordo com as exigências dos Ministérios da Saúde e do Meio Ambiente. Toda utilização obedece a receituário agronômico emitido por profissionais credenciados pelo Crea. A Aracruz adota modernas tecnologias e equipamentos, além do que há de mais avançado em equipamentos de proteção individual (EPIs), como botas, luvas, capacete, máscaras e avental, tanto para funcionários próprios como de terceiros. O cuidado da empresa é extensivo aos participantes do Programa Produtor Florestal, que também recebem orientação técnica. Para evitar ou minimizar os impactos ambientais, a Aracruz segue os modernos conceitos relativos ao uso de agroquímicos e manejo florestal, buscando constantemente se adequar e antecipar-se às mudanças a partir da aquisição de novos conhecimentos. A utilização de defensivos para o controle de pragas e doenças ocorre em caráter curativo, quando não se mostraram eficazes o uso de armadilhas luminosas, controle biológico e outros recursos. O controle de pragas leva em consideração a solução do problema e a sustentabilidade futura do ecossistema agrícola. Análises periódicas realizadas em diferentes pontos de coleta de água, sedimentos e solos, em diversas áreas de atuação da empresa nunca indicaram vestígio de contaminação dos recursos hídricos pelos produtos usados. Não existe nenhuma evidência da morte de animais provocada pelo uso de agrotóxicos pela empresa. Da mesma forma, nunca foi registrado acidente do trabalho causado por intoxicação por agrotóxicos. A Aracruz também faz auditorias periódicas, internas e externas, para avaliar o atendimento da legislação ambiental e a conformidade com as normas sobre manuseio, transporte, aplicação e disposição final das embalagens.

Sim. A prática do monocultivo na agricultura, ou seja, ter apenas uma espécie de planta numa imensa área de terra, é, por si só, perversa. A monocultura representa a destruição das demais formas de vida porque afeta o clima, o solo, as plantas, os animais. Sobretudo, as pessoas. No caso do eucalipto, são plantações industriais, que visam lucro para capitalistas internacionais e causam muitos prejuízos. Para começar, essas empresas usam grande quantidade de veneno, os chamados herbicidas, para matar as demais ervas e não atrapalhar o eucalipto. O veneno desce para o lençol freático, debaixo da terra, e contamina a água. Tonéis de herbicidas e agrotóxicos são aplicados nos cultivos de eucalipto, de modo a facilitar a colheita – já que essas substâncias extinguem qualquer outra forma de vida que não o eucalipto. Em média, são jogados cerca de 250 mil litros de herbicidas por dia nas plantações de eucalipto. Um dos venenos utilizados é o Tordon (2) que, além de ser ilegal, por ser comprovadamente cancerígeno e causador de doenças genéticas, não é indicado para esse tipo de cultura. Mesmo assim, a substância é utilizada em todos os municípios onde o eucalipto é plantado, sob o aval do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal ( Idaf) e da Secretaria de Estado para Assuntos do Meio Ambiente (Seama/Iema), que não toma qualquer providência mesmo diante de denúncias feitas pelos meios de comunicação. Essa prática, além de representar riscos à saúde e à própria vida dos trabalhadores, é responsável pela contaminação da água dos rios, causando também a morte por envenenamento de porcos, galinhas e outros animais domésticos.

5) Qual o(s) impacto(s) dessa monocultura aqui no Rio Grande do Sul?

Positivos. Na Unidade Guaíba, foram incorporadas diversas melhorias tecnológicas e ambientais, entre as quais o processo de branqueamento sem o uso de cloro elementar. Foi ainda inaugurada uma nova central de tratamento e reciclagem de resíduos sólidos industriais, situada no horto florestal de 100 hectares em Eldorado do Sul (RS), capaz de reciclar mais de 180 mil toneladas anuais de resíduos. A eficiência do processo operacional desta Estação garante um índice de mais de 98% de reciclagem. Em julho de 2003 a Aracruz adquiriu o controle acionário da Riocell S.A., localizada no município de Guaíba, no Rio Grande do Sul, fábrica de alta tecnologia com capacidade para produzir 400 mil toneladas anuais de celulose branqueada de eucalipto, na sua maior parte exportada para mais de 30 países. Rebatizada de Unidade Guaíba, possui operações florestais que englobam 42 mil hectares de plantios de eucalipto, localizados em média a 85 quilômetros da fábrica. Estão programados investimentos de R$ 100 milhões de na unidade Guaíba, que irão elevar a capacidade de produção da fábrica para 430 mil toneladas anuais, até 2006. Serão realizados ainda investimentos nas áreas florestais da empresa no RS, com a substituição das espécies de eucalipto atualmente utilizadas por outras de madeira mais densa, que irão assegurar maior rendimento e celulose de melhor qualidade.

Negativos. O avanço da monocultura de eucalipto na metade sul do Rio Grande do Sul deve gerar a ruptura de duas tradições produtivas: a pecuária, realizada principalmente nos latifúndios, e a produção da agricultura de subsistência, realizada nos interstícios das grandes propriedades. As áreas onde há monocultura de eucalipto, como a região dos campos do Rio Grande do Sul, são ecossistemas em risco. O lugar faz parte da construção da identidade das pessoas e sua modificação, com a plantação das mesmas árvores, quilômetros a fio, implica uma transformação violenta da cultura dessas pessoas. Essa situação está sendo reproduzida pela Aracruz no Rio Grande do Sul, onde a empresa comprou uma fábrica do grupo norueguês Borregard e mais de 150 mil hectares de terra. Porém, o que as empresas de celulose querem, no Sul, é mais do que isso: o objetivo é ter acesso à mais rica reserva de água doce do mundo, o chamado Aqüífero Guarani, que fica submerso em toda região habitada antigamente pelos Guarani.

Ana Cristina Opitz

COODHJUPIC

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