ENCONTRO 10

 

            Vamos finalizando nosso ano de Formação, de análise intensa das nossas relações em Fraternidade, do nosso agir essencial franciscano e da nossa secularidade, apostolicidade e minoridade, com um refresco para a nossa memória, que, além de humana, também é divina. Lembremos de como éramos chamados e de qual foi/é/será a nossa conduta diária em meio a uma sociedade que faz lavagem cerebral em seus cidadãos, que conduz a pessoa à ilusão e que esquece do perdão. Façamos nós uma tomada de consciência, reflitamos sobre o que significa sermos franciscanos no mundo de hoje e, finalmente mas não menos importante, sejamos penitentes como Francisco queria que fôssemos, assumamos de coração a Ordem Franciscana Secular…

 

Os Irmãos Penitentes

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

   “Agora, porém, depois que abandona­mos o mundo, nada mais temos a fazer, a não ser seguir a vontade do Senhor e agradar-lhe” (Regra não bulada 22, 9).

 

   1. Estamos diante de mais uma exorta­ção importante extraída das prescri­ções da Regra não bulada de São Fran­cisco. As poucas linhas aqui transcritas abordam o tema da mudança de cora­ção, ou seja, da conversão. Francisco serve-se da expressão abandonar o mundo, quer dizer, deixar um jeito de viver que não está de acordo com a vontade de Deus e não leva em conta os apelos do Evangelho. Os que se con­vertem nada mais têm a fazer do que agradar a Deus.

   2. Os irmãos de Francisco são peniten­tes. Eram conhecidos, com efeito, como os penitentes de Assis. A Regra da OFS afirma: “Como irmãos e irmãs da penitência, em virtude de sua vocação, impulsionados pela dinâmica do Evan­gelho, conforme o seu modo de pen­sar e de agir ao de Cristo, mediante uma radical transformação interior que o próprio Evangelho designa pelo nome de conversão, a qual, devido à fragilidade humana, deve ser realiza­da todos os dias” (n.7).

   3. O movimento franciscano nasce num contexto particular da vida da Igreja na Idade Média. Na Itália, França e Bél­gica, principalmente, surgem iniciati­vas de reforma e de renovação dos cos­tumes. No seio de uma Igreja carente de vigor e de viço, grupamentos mas­culinos e femininos desejam voltar ao Evangelho. Francisco, o penitente de Assis, se insere nessa busca de espiri­tualidade evangélica. No fundo trata­-se de se empreender um processo de conversão. Conversão quer dizer mu­dança do coração. Conversão evangé­lica significa voltar ao Evangelho. Mui­tos desses movimentos reformadores desembocaram na heresia. Este não foi o caso de Francisco que ficou fiel à Igre­ja. Renovou-a a partir de sua própria renovação.

   4. Para que alguém possa ingressar no Reino de Deus ou merecer herdá-lo é a conversão associada a uma busca do Evangelho, diria mesmo, por uma pai­xão pelo Evangelho. Vida de conver­são é a daquele que se conforma a’ Cristo e aos pedidos e às exigências do Evangelho. Os que entram num processo de conversão vivem. Morrem os que rejeitam uma vida de penitên­cia. No mesmo número da Regra não bulada. Francisco desdobra o tema da conversão: necessidade de ouvir a pa­lavra com um coração acolhedor, dei­xar os mortos enterrarem os mortos, conservar a casa do coração limpa.

   5. A conversão requer abandono de um certo modo de viver interesseiro, ego­ísta, materialista. A pessoa se volta ale­gre para o Evangelho e para Cristo Jesus e começa matar o seu próprio ego e abrir-se a Deus e ao próximo. Francisco, aliás, lembra no seu Testa­mento que deixou o mundo quando se encontrou com o leproso e o bei­jou. Naquele momento o doce se tor­nou amargo e o amargo, doce. A con­versão é uma vitória sobre si mesmo. Entra num processo de conversão aquele que toma a decisão de agir se­gundo o Espírito e não segundo a car­ne, como escreve Paulo na Carta aos Gálatas (cap.5).

São Boaventura lem­bra: “E assim, num determinado dia, enquanto cavalgava pela planície que se estende aos pés de Assis, (Francis­co) encontrou um leproso, cujo ines­perado encontro lhe incutiu não pequeno horror. Lembrando-­se, porém, do propó­sito da perfeição já concebida na mente e recordando-se de que primeiro deveria ven­cer-se a si mesmo, se quisesse tornar-se ca­valeiro de Cristo, sal­tando do cavalo, cor­reu a beijá-lo” (Legen­da Maior 1,5). Francisco converteu-se ao irmão das chagas pu­rulentas que tanta re­pugnância lhe causa­va. Lá estava Cristo e o Evangelho!

   6. O caminho da conver­são é árduo. Os que querem seguir o Evan­gelho passam por uma porta estreita. A conversão evangélica poderia se ca­racterizar pela prática da oração, do jejum e da esmola. Assim ela se expri­me no tocante a Deus. No que tange aos irmãos a vida de penitência se marcaria pela bondade como imitação da bondade do Pai dos céus. Uma vida de penitência ou de conversão se ma­nifesta no culto a ser prestado a Deus e no serviço dedicado e fiel à Igreja. Os irmãos seculares servem a Deus de­dicando-se a obras de caridade e pro­movendo em todos os lugares a justiça e a paz.

   7. A Regra da OFS lembra que os irmãos são impulsionados pelo dinamismo do Evangelho. Haverão de conformar seu modo de pensar e de agir ao de Cristo. Isto quer dizer: agir com benevo­lência, saber perdoar, procurar os mais abandonados, visar aos interesses dos outros, chorar com os que choram e rejubilar-se com os que se alegram, re­tribuir a Deus o que é de Deus. Con­versão é, pois, achegar-se mais a Deus, perscrutar sua vonta­de, colocá-la em prá­tica e buscar os outros.

   8. As Fraternidades Franciscanas Secula­res são escolas e es­paços de encontro de irmãos que estão em franco caminho de conversão: juntos lou­vam a Deus, juntos se ajudam, juntos fazem um balanço de suas vi­das, juntos empreen­dem tarefas que con­cretizam os desejos e exigências do Evange­lho, juntos lavam os pés dos outros.

   9. Falar em conversão é lembrar que somos chamados à santidade, a sermos santos,  como santo é o Pai dos céus. Os franciscanos são irmãos penitentes.

Questões para estudo em grupo:

1. Como vocês entendem a expressão “ir­mãos penitentes”?

2. Quais as principais exigências do Evan­gelho que colorem a conversão francis­cana?

3. Ler com atenção Gálatas 5, 16-21. Comentar em grupo as considerações deste texto.

4. Como saber se estamos num processo sério de conversão?

5. Segundo o Prólogo da Regra da OFS quem faz penitência e quem não faz pe­nitência?

BOM TRABALHO!                                    

PAZ E BEM!                                    

                                  

Ana Cristina Opitz                

Coordenadora de Formação Regional Sul 3

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