ENCONTRO 4

            Como falamos no mês passado de conversão diária, sinceridade na Pertença ou Profissão de todo o coração, e amor verdadeiro entre irmãos e irmãs nas Fraternidades, neste encontro, vamos refletir mais sobre essa característica marcante dos seguidores de Francisco e Clara de Assis. Não esqueçamos que, neste ano de Formação, o foco está em nossas Fraternidades: como se organizam internamente, como recebem os novos, como os fazem perseverar e como cuidam do crescimento espiritual individual e em grupo dos seus professos. Afinal, somos seculares, precisamos nos adaptar ao mundo sem perder de vista nosso ponto de partida, como já dizia nossa mãe Clara.

 

Os Irmãos Sinceros

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

   E onde quer que estiverem e em qual­quer lugar em que se encontrarem, de­vem os irmãos espiritual e diligentemen­te cuidar uns dos outros, e honrar-se mu­tuamente sem murmuração. E cuidem para não se mostrar exteriormente tris­tes e sombriamente hipócritas, mas mos­trem-se alegres no Senhor, sorridentes e convenientemente simpáticos (Regra não bulada 7,15-16)

 

   1. Francisco vai desdobrando as qualida­des e características dos irmãos de sua Fraternidade. Estes são convidados a encarnar o amor fraterno. Serão aten­ciosos, deferentes, corteses, irmãos sin­ceros e alegres. Onde estiverem eles cuidarão dos irmãos: que estes se sin­tam bem, tenham o que comer, não sejam perturbados em seu descanso, sejam ajudados na execução de suas ta­refas, que não lhes falte o necessário para viver dignamente, que sejam pou­pados de aborrecimentos. Assim, os ir­mãos se honram mutuamente.

   2. O que significaria honrar-se mutuamen­te sem murmuração? Murmurar não quer dizer apenas pronunciar palavras delicadas, carinhosas e suaves como os movimentos das ondas do mar. Tem um significado negativo: reclamar entre os dentes, dizer coisas azedas baixinho contra os outros. Na 1 Pedro 4,9: “Sede hospitaleiros uns com os outros sem murmuração”. Ora, Francisco não ad­mitia esse expediente do reclamão, da­quele que critica o irmão sem caridade, do que critica por criticar e não cons­trutivamente, que faz uma crítica sor­rateira. Os irmãos de uma Fraternidade podem criar um clima desagradável mur­murando contra o Ministro e a Ordem reinante, ou deixando de ser hospita­leiros de coração, reclamando das exi­gências que a Fraternidade venha a apresentar, murmurando contra os ir­mãos.

   3. Os irmãos mostrar-se-ão familiares en­tre si. Ao longo do tempo da vida, de encontros repetidos, da formação vivi­da em comum, de experiências pasto­rais partilhadas, de confidências rece­bidas, acontece que o grupo vai se tor­nando uma família. E na família uns cuidam dos outros. Fica sempre o desafio, para as fraternidades seculares, de alimentar e nutrir essa familiaridade­ mesmo que os irmãos vivam dispersos pelo mundo. Até que ponto estamos fazendo efetivamente uma experiência concreta de fraternidade?

   4. Todos temos consciência da problemá­tica dos tempos em que vivemos no que tange às relações mútuas. Vivemos um tempo de indiferentismo e de indi­ferença. Pessoas morrem e são deixa­das de lado. Pessoas são esquecidas. Ninguém sofre com o outro. Cada pes­soa procura salvar a vida, ganhar di­nheiro, viver seu projeto de vida no seu canto. Assistimos ao espetáculo da competição. Uns querem estar sobre os outros. Há estratégias visando prejudi­car o outro por detrás dos panos, camufladamente, falsamente. Ora, a Fraternidade de Francisco é o contrá­rio disso. É terra em que as pessoas se desarmam e se apresentam límpidas e transparentes umas às outras. Insisti­mos na expressão “irmãos sinceros, ir­mãos de verdade”. Na Fraternidade não há medo de competição e ninguém é deixado de lado. Uns cuidam dos ou­tros.

   5. O cuidar dos outros significa servir. Ao longo dos anos da vida de Fraternidade uns servem aos outros. Há esse servi­ço material. Ninguém pode passar fome. A Fraternidade ajuda o irmão a pagar suas prestações atrasadas devido ao desemprego e escuta os anseios mais profundos de um irmão que teria gosto de colocar um piso em sua casa ou da irmã que tem um marido dependente do álcool.

Há essa pre­ocupação pela saúde espiritual do outro. Por que ele está faltando à reunião? Por que abando­nou determi­nado serviço pastoral? Por que está marcando passo? Por que não par­ticipa dos retiros da Fraternidade?

   6. As determinações e orientações vali­am para a Fraternidade, mas também no modo de ir pelo mundo, na manei­ra de viver a missão: “… aconselho aos meus irmãos quando vão pelo mundo, não discutam nem alterquem com pa­lavras, nem julguem os outros, mas sejam mansos, pacíficos e modestos, brandos e humildes falando a todos ho­nestamente como convém” (Regra bulada ou definitiva 3, 12).

   7. Os irmãos viverão a sinceridade da fraternidade, sem fabricar um persona­gem, sem usar máscara. E os irmãos exteriormente haverão de se mostrar alegres. Não podem vestir-se do véu da hipocrisia e ter sulcos de tristeza no semblante. Em outro contexto Francisco pede que o irmão triste se afaste do meio de seus irmãos até passar seu descontentamento. Na Fraternidade uns e outros se mostram alegres. Ale­gre é aquele que reconhece que é o Se­nhor quem Ihes dá os bens. Alegria quer dizer contentamento. A tristeza vem do inimigo.

   8. Nossos encontros na Fraternidade serão alegres. Os irmãos precisam adquirir o gosto pelo canto, pelo prazer de cantar. O canto bem executado faz parte de nos­so culto dominical. O canto está sempre presente em nossas reuniões. Alegria não quer dizer euforia, mas um conten­tamento de po­bres e simples que se sabem cumulados de muito amor por parte do Senhor e dos irmãos. A alegria vem sem­pre do fundo do coração.

   9. “Voltando Francisco a Santa Maria da Porciúncula…alguns homens letrados e alguns nobres se juntaram a ele com muita satisfação. E ele era muito no­bre de espírito e discreto, tratando-os com honra e dignidade, colocava pie­dosamente o que era seu à disposição de cada um” (Celano 57).

Questões para estudo em grupo:

1. O que mais chama sua atenção neste texto de estudo?

2. Nas reuniões de nossa Fraternidade como, praticamente, os irmãos hon­ram os irmãos?

3. O que vem a ser honrar sem murmura­ção?

4. Nossas reuniões são espaços onde se respira alegria? O que fazer para tor­nar nossos encontros alegres?

BOM TRABALHO!                                    

PAZ E BEM!                                    

                                  

Ana Cristina Opitz                

Coordenadora de Formação Regional Sul 3

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