O QUE É A PERTENÇA FRANCISCANA?

Ana Cristina Opitz

Coordenadora de Formação Regional Sul 3

Não é à toa que o tema do último Capítulo Geral foi A profissão do franciscano secular e seu sentido de pertença. Muito temos a dizer e sempre teremos, se pensarmos em tudo que “a pertença” significa na nossa vida. Comecemos do início: a formação. Como estamos nós nela? Ou como ela está em nós? Será que ainda nos consideramos em formação ou essa foi uma etapa vencida no caminho da nossa secularidade?

O que ouvimos muito pelas fraternidades é que a Ordem está ficando velha… Será? O que é “velha”? O mesmo que “idosa” ou “antiga” ou “obsoleta”? Aí está a questão. Os membros da OFS do Brasil estão com sentimento de cansaço, desânimo e velhice por responsabilidade própria. As fraternidades são núcleos familiares que devem estar se renovando todo dia, mas isso não acontece. O título de Escola de Perfeição Cristã seduziu muitos de nossos sábios e valiosos franciscanos a abraçar uma vida de penitência e conversão diária sem saber que essa Escola não podia parar de se atualizar, de acompanhar a evolução dos tempos, pois é de uma vida secular que estamos tratando. O que ocorreu é que as fraternidades foram se esvaziando com os anos, os nossos franciscanos mais antigos foram encontrando a nossa Irmã Morte e deixando verdadeiros buracos vocacionais nelas. O que fazer? Antigamente, pensava-se em entrar para a Ordem para aprender a ser santo antes de morrer… Hoje em dia, ainda temos exemplos desse pensamento acomodado em nossas fraternidades, o que as faz esmorecer a olhos vistos! A mudança está na formação!

Formamos cristãos para serem verdadeiros franciscanos na sociedade, para atuarem na política, para serem pais e mães de família amorosos, para agirem como cidadãos conscientes e profissionais responsáveis por onde quer que estejam, enfim, para que se tornem exemplos vivos do Evangelho de NSJC. Aí está a mudança: a formação é para os vivos e para dar cada vez mais sentido à vida dos cristãos; e não, para quem se prepara para fazer a passagem… A sabedoria dos mais velhos é usada hoje de modo a dar mais esclarecimentos sobre a vida no mundo, a balizar os caminhos por onde trilham os franciscanos novos e a testemunhar sua escolha pela vida secular! Pensando nisso, a Formação Franciscana voltou-se para o tempo de formação de iniciantes e formandos, além de rever como essa formação estava sendo ministrada nas fraternidades. Com relação ao tempo, conseguimos perceber que, na urgência por novas vocações ou por franciscanos mais jovens, a formação de iniciantes foi abreviada. Para que serve o Tempo de Iniciação? Muitos formadores desconhecem o real motivo pelo qual ainda subsiste este ano/tempo de formação, é uma pena. É justamente aí que plantamos a semente da pertença no coração dos cristãos aspirantes ao franciscanismo. Neste ano de vivência franciscana na escola de perfeição cristã é que o formador percebe se o iniciante tem ou não o carisma de nosso fundador, São Francisco. Sim. Não devemos colocar todo e qualquer devoto de São Francisco para dentro de nossas fraternidades, ele será eternamente um simpatizante da missão da OFS, e não, um FRANCISCANO SECULAR. O Formador também tem a função de identificar a luz do carisma de Francisco e Clara nos cristãos que se dispõem a frequentar este tempo. Somos mensageiros da paz e do bem, somos instrumentos de paz!

Passando ao Tempo de Formação Franciscana, a sementinha já plantada, temos que cuidá-la, adubá-la e regá-la com muito desvelo. Precisamos mais um ou dois anos até ter uma plantinha forte que não cairá com a primeira tempestade. É neste tempo que damos ao conhecimento do formando o que é ser franciscano e quais são suas responsabilidades. Passamos então a informá-lo, a formá-lo e a incentivá-lo a autoformar-se permanentemente, o que o fará sentir-se membro efetivo de uma Ordem Religiosa. Esses três pontos (informação, formação e autoformação) são importantíssimos para que esse novo franciscano persevere na fé seguindo o exemplo de Clara e Francisco de Assis. Ao final desse Tempo, teremos um cristão que conviveu com a família franciscana na sua Fraternidade Local, absorveu a História e a Formação dos Franciscanos ao longo destes mais de 800 anos e decidiu fazer sua Profissão Definitiva na OFS, estando bastante esclarecido de que sua decisão de entrar numa Ordem é para sempre! Afinal, como nos disse João Paulo II,

A palavra ‘Ordem’ significa a participação na disciplina e na austeridade própria daquela espiritualidade, a qual, na autonomia própria de vossa condição laical e secular, comporta pequenos sacrifícios não menores do que aqueles que se experimentam na vida religiosa e sacerdotal. (João Paulo II, 14 de junho de 1988, ao Capítulo Geral da OFS)

           

Se iniciarmos a conscientização franciscana já na formação, com o passar do tempo teremos uma Ordem mais unida, forte, madura e autônoma, não tão “dependente” de seus Assistentes Espirituais ou tão vulnerável a desmandos das Paróquias: formada de franciscanos professos adultos! Aí então seremos o que Francisco idealizou para nós:

Sepultados e ressuscitados com Cristo no Batismo, que os torna membros vivos da Igreja, e a ela mais fortemente ligados pela Profissão, tornem-se testemunhas e instrumentos da sua missão entre os homens, anunciando Cristo pela vida e pela palavra.

Inspirados por São Francisco e com ele chamados a restaurar a Igreja, empenhem-se em viver em comunhão plena com o Papa, os Bispos e os Sacerdotes, promovendo um confiante e aberto diálogo de fecundidade e de riqueza apostólica. (Regra e Vida, cap.II, art.6)

           

            Será que estamos testemunhando o franciscanismo? Quiçá o cristianismo?

Será que estamos sendo instrumentos da missão de restaurar a Igreja que Francisco e Clara abraçaram e a quem nos propusemos a seguir?

Será que estamos (con)vivendo como irmãos e irmãs da penitência?

Há diálogo entre nós? Ou estamos nos acomodando?

Somos sujeitos nesta História da Igreja, somos personagens importantes na História do Franciscanismo, pertencemos a uma Ordem Secular que teve e tem coragem de acompanhar a evolução do mundo, seus avanços tecnológicos e científicos, que forma (e é formada de) franciscanos conscientes, críticos e responsáveis de seus direitos e deveres enquanto leigos na Igreja e na Sociedade, e o que estamos fazendo com isso? Será que não estamos enterrando nossos talentos?

A conscientização do que é a Profissão em uma Ordem Religiosa pode se refletir em nossos atos cotidianos, por exemplo, se nos identificarmos como franciscanos da Equipe de Liturgia, como franciscanos da Legião de Maria, como franciscanos do Partido Político X, como franciscanos da Pastoral da Terra, como franciscanos…

Somos franciscanos!

Pertencemos à OFS!

Encarar esses fatos vai nos ajudar a tomar nas mãos a nossa missão secular e a contribuir efetivamente para a restauração da Igreja de NSJC, dando continuidade à utopia de Francisco e Clara de Assis. Isso é a Pertença Franciscana!

 

Revista Paz e Bem

Maio/2009

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