Síntese da palestra de mesmo título de Leonardo Boff

no Colegiado Nacional do SINFRAJUPE,

em Petrópolis, em 21/07/04.

 

            A originalidade da ecologia é não estudar coisas e objetos como as outras ciências. Ela é a ciência das relações, que estuda o relacionamento entre os seres e o seu meio. Nunca vê um objeto como coisa em si mesmo, mas o jogo das relações, a estrutura física, a arte, a mensagem. É a ciência eixo do Mundo. Nós poderíamos dizer que ela é responsável pela economia da criação. Em nome do desenvolvimento e do progresso, o homem tem ignorado este princípio, de que a natureza é reciclável, e nós estamos condenando várias espécies ao esquecimento, pois ignoramos o desenvolvimento auto-sustentável. Um desenvolvimento é sustentável se atende às três necessidades: natureza, gerações futuras (solidariedade generacional) e demandas humanas.  Estamos planejando a destruição do ser humano. O nosso futuro não depende das forças diretivas da natureza, e sim, de uma decisão política das grandes potências, em que não só franciscanos empenhem-se, mas também todo homem que queira viver.

“A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida.”(A Carta da terra, 2004, p. 7)

Até hoje fomos seguidores de Pedro Bernardone, é hora de ouvirmos mais o filho, Francisco de Assis. O espírito de Francisco de se relacionar com a natureza, e não domina-la, é a nossa salvação.

            Por falta de interesse político-econômico, estão poluindo o cerrado, destruindo-o com venenos e agrotóxicos. É lá que quase todos os rios brasileiros têm suas fontes nascentes. Lá é nossa caixa d´água. As religiões têm suas bases no antropocentrismo, de que o meio ambiente está a nosso dispor. Só o franciscanismo é que aboliu essa base, pois, pelo carisma de Francisco, a natureza é nossa irmã (húmus= terra Þ humano), todos somos irmãos e primos e, tanto o ser humano quanto outros seres, relacionam-se com a natureza igualmente, não estando esta a nosso exclusivo serviço.

            Temos que deixar de lado os valores de competição e auto-afirmação, pois, se não, teremos um desenvolvimento egoísta e homicida.

            Se analisarmos este ditado, “no final da vida, até o diabo vira sacristão”, verificamos que, hoje em dia, as religiões estão “vendendo” vagas na salvação, estão vendo quem consegue mais fiéis: estamos em um mercado. O ser humano é filho da Terra. Nós somos vistos como parte de um todo, de uma galáxia, de um cosmos. A perspectiva ecológica tem 4 vertentes: ecologia ambiental (cuidar da vida e do meio ambiente), ecologia social (respeitar o meio), ecologia mental (desmanchar o egocentrismo) e ecologia integral (ver o homem como um ser cósmico). Reunindo as 4, é como devemos raciocinar.

            Questões como o aquecimento global e a escassez  de água potável são iminentes. Aquele é o grande vilão dos nossos tempos, é o responsável por um grande desequilíbrio nas temperaturas, nos climas, nos fenômenos naturais; esta está aumentando na medida em que os regimes de chuva estão se alterando.  A falta de água afeta mais o desenvolvimento do que a alimentação. Devido a essa escassez, a lógica do mercado transforma a água em mercadoria. No entanto, a água é vital. Por sua natureza, não pode ser transformada, porque seria transformar a vida em mercadoria.  A água é um direito fundamental à vida e é como alimento da rede da vida e do ser humano. Mesmo que ingiramos alimentos, eles não são transportados sem a água. A grande discussão é essa: a água é mercadoria ou é vida? Esses dois problemas são ecológicos, mas também são políticos.

Conquistamos tudo, mas não cuidamos de nada. A nova fase civilizatória é cuidar.

A situação é séria, mas nós não nos movemos por medo, mas por consciência. Há um cenário criado que precisa ser enfrentado Há uma comunhão de destino, terra e humanidade. Somos chamados à consciência coletiva da humanidade, somando os pontos comuns e respeitando as diferenças. Quem vai ajudar a salvar são os que já estão em um novo paradigma.

PERSPECTIVAS/ALTERNATIVAS

            Cada gesto que fazemos é importante, é o efeito contagiante da borboleta. A sustentabilidade da sociedade é o grande desafio de todos, é preciso haver uma política inclusiva, em que natureza e homem saibam conviver em harmonia sem haver agressão de um a outra e vice-versa. É preciso que seja uma decisão política a respeito do desejo de viver. Consegue-se a sustentabilidade com base na ética do cuidado. É o contrário do que acontece, pois a violência e o poder são o caminho mais curto para conquistar resultados, muitas vezes, irreversíveis com relação à Natureza, ou seja, dominando-a, desrespeitando-a. O cuidado é uma das dimensões mais profundas do humano. O cuidado é a pré-cognição que acompanha o homem desde o nascimento até a morte. Sem cuidado não há vida, ele é anterior ao Tempo, à Terra, ao Espírito. Deus teve cuidado ao nos criar e acompanhar por toda a nossa vida. O cuidado está ligado à estrutura primeira do mundo, ele retém a velocidade do desgaste das coisas, dos seres, etc. Deus não é para ser pensado, é para ser sentido, por isso ele ocupa todos os espaços, não só do cérebro. Tudo está cercado de cuidado. É a condição mínima e mais primitiva do ser humano. A cultura se destrói por causa do descuido. O cuidado é o norteador antecipado de tudo o que se faz e de tudo aquilo que se produz. Junto com o cuidado, colocaria a compaixão.

            O princípio da compaixão é não deixar que o outro sofra sozinho. Cristo ainda não completou a ressurreição, porque seus irmãos ainda não ressuscitaram. Ele continua morrendo e ressuscitando. Ele só ressuscitou na sua dimensão material, não na espiritual, pois ainda está sendo crucificado com os nossos sofrimentos. Ele quer estar no meio de nós para continuar redimindo nossos pecados. Hoje, mais do que nunca, precisamos de compaixão. Há uma injustiça ecológica, de maltrato ao ambiente. Esses dois princípios são valores de um novo eixo civilizatório.

Junto a esses, está o princípio da cooperação. Esse princípio é a base da humanização e da socialização, além de tudo que as envolve. A consciência humana nasceu quando a caça começou a ser socializada, começando pelos mais fracos. Nasceu a solidariedade, da solidariedade nasceu a sociabilidade, da sociabilidade nasceu a linguagem. A cooperação é a virtude que nos faz humanos, principalmente aos mais fracos. A economia precisa de um mínimo de cooperação para acolher os fracos, sem ela nós somos só animais. Quando uma criança especial nasce, humanamente ela tem menos estrutura corpórea, mas a cooperação dos outros humanos eleva essa criança à condição de humanidade como as outras, de poder socializar-se com elas. Essa utopia mínima está na base de qualquer projeto. A Humanidade está perdida, em busca de exemplos de vida, de pessoas que conseguiram viver uma coerência filosófica, uma utopia. Essas biografias são provas de que é possível viver uma condição humana, mesmo que seja dicotômica, ambígua ou contraditória. A espiritualidade franciscana não está baseada nas virtudes, e sim, na integração, é o santo medieval e ontológico. A relação que São Francisco mantinha com a Natureza era de cuidado, respeito e gratuidade. É preciso resgatar essa utopia, atualizá-lo.

PAZ & BEM!!!!

Ana Cristina Opitz

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