Procurando as origens do Discurso  Religioso Católico Fundador no Brasil, tivemos a necessidade de verificar o que é Igreja Católica e qual seu objetivo inicial. Vimos que a Igreja, que deveria aproximar as pessoas cada vez mais de Deus e de sua Palavra, na prática afastava os fiéis da religião. Os seguidores eram sujeitos a uma hierarquia estranha à Bíblia, na qual os administradores maiores se preocupavam mais com o jogo político do que com a situação espiritual dos fiéis. Aqueles que se dedicavam mais ao estudo da palavra, em vez de estarem próximos dos fiéis, conscientes de suas lutas e necessidades, isolavam-se em mosteiros. Novas estruturas monásticas são formadas e multiplicam sua influência. No entanto, dentro dessas estruturas, o que se vive é um distanciamento cada vez maior da realidade dos fiéis. Os religiosos estudam a Bíblia e alguns poucos escritos que refletiam um misticismo[1] enaltecedor da trindade (Pai, Filho, Espírito Santo), porém contraditório à missão primeira da Igreja.

            No fim da Idade Média, o crescente desprestígio da Igreja do Ocidente, mais interessada no próprio enriquecimento material do que na orientação espiritual dos fiéis; a progressiva secularização da vida social, imposta pelo humanismo renascentista; e a ignorância e o relaxamento moral do baixo clero favoreceram o desenvolvimento do grande cisma do Ocidente, registrado entre 1378 e 1417, e que teve, entre suas principais causas, a transferência da sede papal para a cidade francesa de Avignon e a eleição simultânea de dois e até de três pontífices.

            Uma angústia coletiva dominou todas as camadas sociais da época, inquietas com os abusos da Igreja, que exigia dos fiéis dízimos cada vez maiores e que se enriquecia progressivamente com a venda de cargos eclesiásticos. Bispos eram nomeados por razões políticas, e os novos clérigos cobravam altos preços pelos seus serviços (indulgências), e nem sempre possuíam suficiente conhecimento de religião ou compreendiam os textos que recitavam.

            Com as rendas que auferiam, papas e bispos levavam uma vida de magnificência, enquanto os padres mais humildes, carentes de recursos, muitas vezes, sustentavam suas paróquias com a instalação de tavernas, casas de jogo ou outros estabelecimentos lucrativos. Outros paradoxos, como a venda de objetos tidos como relíquias sagradas – por exemplo, lascas de madeira como sendo da cruz de Jesus Cristo – era efetuada em profusão. Diante dessa situação, pequenos grupos compostos por membros do clero e mesmo por leigos estudavam novas vias espirituais, preparando discretamente uma verdadeira Reforma religiosa.

            Esse movimento de renovação espiritual da Igreja prosseguiu nos séculos seguintes. Várias ordens religiosas foram fundadas com o objetivo de eliminar a corrupção, os interesses materiais e o acúmulo de riquezas de toda a Igreja. Essas ordens queriam abolir o controle dos senhores feudais sobre o clero. Combatiam, principalmente, práticas pouco cristãs, como a compra e venda de cargos da Igreja. No século XIII, apareceram os frades. Originalmente não eram membros do clero, mas leigos. Ao invés de se trancarem em mosteiros, preferiam o trabalho beneficente, a pregação e o ensino. Uma figura muito importante foi São Francisco de Assis (1182-1226), fundador da primeira ordem franciscana, a Ordem dos Frades Menores, em 1209. Os Franciscanos organizaram-se pelo trabalho de Francisco de Assis e, em 1223, desenvolveram-se em vários ramos independentes (partições da mesma Ordem), como os Menores, os Capuchinhos e os Observantes (hoje Conventuais). E assim foi, neste período, com várias outras ordens de menor importância. Praticamente a única ordem religiosa que não surgiu neste período foi a dos Jesuítas, formada em 1534 – na onda da Contra-Reforma.

            Vários movimentos de contestação estenderam-se entre os séculos XI e XIII, época em que a Palestina estava sob controle dos turcos muçulmanos. Chama-se Cruzada a qualquer um dos movimentos militares, de caráter parcialmente cristão, que partiu da Europa Ocidental com o objetivo de colocar a Terra Santa (nome pelo qual os cristãos denominavam a Palestina) e a cidade de Jerusalém sob a soberania dos cristãos. Os ricos e poderosos cavaleiros da Ordem de São João de Jerusalém (Hospitalários) e dos Cavaleiros Templários foram criados pelas Cruzadas.

 Na época das grandes navegações e dos descobrimentos, a mística contestatória do espírito de “guerra santa” era a que animava a Cristandade medieval em suas Cruzadas contra os muçulmanos. Era essa mística igualmente incompatível com o Projeto colonial português, que estava em franco processo de expansão além-mar e não dava vital importância ao “catequismo”, mesmo tendo a Igreja como parceira política importante da Coroa Portuguesa. Tendo em vista a ótica missionária de Francisco, que priorizava o testemunho de vida, a preferência pelos “menores” da sociedade e o anúncio da Paz e do Bem[2], podemos observar certo antagonismo da Ordem de sua fundação com aquelas, tanto em se tratando de Cruzadas quanto da Coroa Portuguesa. Os Franciscanos portugueses traziam a herança profunda de uma mística missionária, no entanto eles terão que se inserir no projeto conquistador, e, posteriormente, no projeto colonial português de modo funcional, não com uma mística da Colonização e da Conquista, mas sim com a mística do Evangelho e de Francisco de Assis, segundo regimentos ou estatutos missionários.

No referido ano de 1500, Frei D. Henrique de Coimbra foi escolhido pelos Superiores de sua Ordem para chefiar a missão franciscana que iria ser fundada na Índia Oriental. Sua presença na esquadra de Pedro Álvares Cabral, com mais sete confrades da ordem seráfica, deu-lhe o ensejo de celebrar a 1ª Missa em terras brasileiras. Foi o PRIMEIRO anúncio missionário em terras de Santa Cruz. Daqui, Frei Dom Henrique foi enviado à Índia e de lá foi chamado a retornar a Portugal. Cada vez mais o ideal missionário de Francisco estava cedendo à missão evangelizadora da Corte, mesmo sendo impensável uma aliança entre Cruz e Espada.

Para nos fundamentarmos acerca das respectivas místicas, suas ideologias, o que as aproxima e o que as distancia entre si, e do seu relacionamento com a Igreja (Instituição) e com a Coroa Portuguesa, faremos, a seguir, um breve histórico da Ordem dos Frades Menores e da Companhia de Jesus.

A Ordem dos Frades Menores (em latim Ordo Fratrum Minorum, O. F. M.), também conhecida por Ordem dos Franciscanos ou Ordem Franciscana, é uma das três[1] ordens religiosas fundadas por São Francisco de Assis (1182-1226).  Os franciscanos são religiosos que realizam voto de pobreza, castidade e obediência e vivem em fraternidades, que se designam por conventos. Os seus conventos são tradicionalmente junto das cidades. O início  da Ordem deu-se em em 16 de abril de 1209, com doze discípulos (a família dos doze irmãos menores), que viria a ser conhecida como a Ordem dos Frades Menores. Os primeiros irmãos que recebem são: Frei Bernardo de Quintavalle, homem de grande fortuna que abandona tudo para seguir São Francisco e que será mais tarde seu sucessor; Frei Pedro Cattani, cônego e conselheiro legal de Assis, homem de esmerada cultura, instrução e dotado de grande inteligência; e o irmão Leão, que será sempre e em todas as horas seu fiel companheiro. No ano de 1210, vai a Roma com 11 irmãos, levando uma breve Regra (que se perdeu). O Papa Inocêncio III, admirado, ouve sua exposição do programa de vida, mas, com regras tão severas, fica indeciso e decide esperar para aprová-las oficialmente. Assim, aprova as regras apenas verbalmente. Conta-se que dias mais tarde, em sonhos, o Papa teve uma iluminação sobre a missão destinada por Deus a Francisco (e diz-se que este Papa foi enterrado com vestes Franciscanas). Com a regra aprovada, Francisco instala-se com seus irmãos em Rivotorto, perto de Assis, num rancho abandonado, próximo de um leprosário. Esta mísera residência foi a primeira casa dos irmãos Franciscanos. Tiveram lá uma vida difícil, assinalada por duras provas. Apesar do espírito de renúncia e sacrifício que deveria existir na vida de seus filhos espirituais, São Francisco pregava que um servo de Deus não podia manifestar tristeza, desânimo ou impaciência. Na alegria da vida, o Santo via a fortaleza da alma cristã, força que devia levar aos desamparados e a todos aqueles que sofriam provações. Os irmãos, então, são enviados, dois a dois sempre, para além da Itália, mesmo não sabendo, muitas vezes, falar o idioma local. Missionários distribuem-se por todo o Continente Europeu e, em muitos lugares, são maltratados e sofrem todos os tipos de dificuldades. São Francisco orava e trabalhava sem cessar, assistia as viúvas, as crianças famintas e todos os excluídos, fosse no campo, nas cidades ou nos mosteiros. Orava intensamente pela conversão dos pecadores, proclamava a paz, pregando a salvação e a penitência para remissão dos pecados, resolvia conflitos, desavenças, estabelecendo sempre a harmonia em nome do Senhor. Compreendia a dor e o sofrimento, pelo amor a Deus, mas se considerava um pecador, o mais miserável dos homens, então vivia em penitência e jejum e renunciava a todas as comodidades. Era severíssimo consigo mesmo, no entanto, aos seus filhos espirituais, não permitia que fizessem demasiada penitência nem jejum, pedia sempre que imperasse a virtude da moderação, para assim poder melhor servirem a Deus.

No ano de 1212, os Beneditinos oferecem-lhe a pequena igreja de Santa Maria dos Anjos, na Porciúncula, pois eram muitos os homens que, atraídos pela vida de pureza do Santo, queriam ser acolhidos na Ordem. Esta seria o berço da ordem Franciscana, onde os frades renovaram solenemente seus votos, O Santo os chamava de “Frades Menores”, porque sempre seriam pobres e humildes, puros e livres das coisas deste mundo e tivessem o coração e a mente dominados pelo desejo de Deus (ao menos era o que ele desejava). Trabalhavam com suas próprias mãos para alcançar os meios de subsistência e, só em último caso, pediam ajuda a outros. Jamais deveriam possuir bens de qualquer natureza, assim não teriam correntes que os prendessem a terra. Os frades adotaram como trajes o vestuário dos humildes: uma túnica grossa de lã (geralmente de cor crua ou marrom), amarrada por uma corda na cintura, e sandálias. Suas humildes túnicas amarradas por um simples cordão levam até hoje três nós que significam seus votos: Pobreza, Obediência e Castidade. A sua missão consistia em praticar e pregar simplicidade e amor a Deus e à caridade cristã.

No ano de 1216, a Ordem obtém do Papa Honório III, sucessor de Inocêncio III, e a pedido do próprio São Francisco, uma Indulgência para a Igreja de Santa Maria dos Anjos. Esse foi um ato bastante audacioso do Santo, pois a Indulgência só era dada aos peregrinos da Terra Santa e aos Cristãos que fossem às Cruzadas. A Ordem Franciscana cresceu tanto com o passar dos anos que, no ano de 1219, houve uma grande expansão para a Alemanha, Hungria, Espanha, Marrocos e França. Francisco e seus irmãos vão para o Oriente em missão e, em Damieta, se encontra com os Cristãos que faziam parte das Cruzadas e que tinham sido derrotados pelos Muçulmanos. Cuida dos feridos, prega a palavra de Deus, levando a todos conforto espiritual. Conta-se que nessa batalha morreram 6.000 cristãos. Até hoje os Frades Menores encontram-se presentes em todo o Oriente, trabalhando pela Paz e pela conversão. Nesta mesma época, os Frades Menores ganharam a custódia do Santo Sepulcro em Jerusalém, e São Francisco conhece Santo Antônio de Pádua, que havia sido cônego de Santo Agostinho e se tornado um Frade Menor. Mais tarde, São Francisco pede-lhe, numa carta, que ensine Teologia aos frades, mas que não se apague o espírito da oração e devoção como mandava a Regra. Na sua humildade, buscava unir-se sempre mais a Deus, desejando a confraternização de todos os seres, sem distinção de raça, credo ou cor. Ele repetia: Todos os seres são iguais, pela sua origem, seus direitos naturais e divinos e seu objetivo final.

Neste mesmo ano de 1219, durante sua ausência, vigários modificam algumas regras, o que faz com que São Francisco demita-se da direção da Ordem. Com o crescimento da mesma, quase 5.000 frades em 1221, uma nova regra precisou ser escrita por São Francisco. Em 29 de novembro de 1223, obteve aprovação do papa Honório para a Regra que vigora até hoje.

Por assim dizer, a Ordem Franciscana viveu, nos últimos anos da vida de São Francisco (1220-26), transformações decisivas para o seu futuro, transformações que o próprio São Francisco aprovava e procurava harmonizar com o espírito original de sua fraternidade. Com isso, foram-se acrescentando outros elementos que passaram também a caracterizar a vida franciscana: os frades, de itinerantes, tornaram-se estáveis, morando em conventos; de iletrados, com Santo Antônio e outros, tornaram-se estudiosos das coisas da religião; buscou-se uma ligação mais estreita com a Igreja por meio do Cardeal Protetor; o zelo pela pregação do Evangelho levou os frades a transferirem seus conventos para dentro das cidades e a se dedicarem ao trabalho pastoral entre o povo; procuraram meios menos precários de sustento com uma consequente administração mais elaborada.

Com estas transformações, a fraternidade franciscana possuía, desde o início, elementos de mudança que deveriam levá-la a um estilo de vida conventual, como nova dimensão de unidade e fraternidade. Com esta tendência, concordavam São Francisco e todos os membros de boa vontade da Ordem e também a Igreja. As fontes franciscanas historicamente mais próximas a São Francisco mostram como ele próprio favoreceu estas mudanças, embora fontes tardias pretendessem falar de rejeição por parte dele. Segundo estes textos tardios, retomados por vários historiadores e biógrafos modernos, São Francisco teria visto desvirtuar-se o espírito originário de sua Ordem sob a pressão da Igreja e de alguns frades “sabidos”. Disso teria nascido aquele “momento dramático” da vida de São Francisco de que falam muitas biografias. Esse “drama”, porém, como diz o grande e reconhecido franciscano frei Kajetan Esser, nunca existiu.

O nome conventual  (OFMconv) apareceu em 1249/50, identificando aquelas comunidades de frades que moravam em conventos, inseridas nas cidades, dedicadas aos estudos e ao trabalho apostólico em igrejas chamadas conventuais e que valorizavam intensamente a fraternidade desejada por São Francisco como característica de sua Ordem. Quem ligava os frades entre si (OFM e OFMconv) era a figura de São Francisco, o espírito franciscano e a unidade assegurada pela Regra de Vida escrita pelo seu fundador, além da obediência e um sinal externo: o hábito franciscano, só que de cor cinza. Logo, porém, começaram a aparecer alguns pontos fracos: a formação dos novos irmãos estava ficando difícil; havia o perigo da ociosidade; já havia frades que andavam à toa desligados dos demais; a falta de estudos tornava os frades frágeis e sujeitos à influência dos hereges, geralmente cultos; a pobreza radical colocava, por vezes, os frades em situações de extrema penúria; não havia como amparar os irmãos doentes e velhos. Mais tarde, outras mudanças ocorreriam…

Em 1517, mais uma divisão anuncia-se, com a aprovação do Papa Leão X, de um novo ramo da OFM, que desejava viver mais o espírito missionário de Francisco de Assis. A OFMcap surgiu por volta de 1520, quando Matteo da Bascio, originário da região de Marche, na Itália, um franciscano, se deu conta que a roupa vestida pelos franciscanos não era do mesmo tipo que a vestida por São Francisco de Assis. Assim, ele fabricou um capuz pontudo, deixou a barba crescer e começou a andar descalço. Seus superiores tentaram suprimir essas inovações, mas, em 1528, ele obteve o acordo do Papa Clemente VII. Foi-lhe dada a permissão de viver como um eremita e de ir aonde quisesse para rezar pelos pobres. Essas permissões não foram dadas somente a ele, mas também a todos que quisessem se juntar a ele, a fim de restaurar a obediência literal às regras de São Francisco. Matteo logo teve a companhia de outros. Os Franciscanos Observantes (OFM) opuseram-se ao movimento, mas os Conventuais (OFMconv) apoiaram-no, de modo que Matteo e seus companheiros juntaram-se em uma congregação que se intitulou Frades Menores Eremitas. Eram um ramo dos Franciscanos Conventuais, mas com vigário próprio, embora sujeito à jurisdição do Geral dos Conventuais. O nome popular de Frade Capuchinho deriva do nome do capuz usado por eles (capucize), vindo mais tarde esse ramo a ser conhecido por Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMcap).

O que se depreende das fontes franciscanas e jesuítas (cf. NÓBREGA, Carta VI, 1550) é que os frades que vieram para o Brasil eram Observantes (OFM) da Província de Santo Antônio de Portugal (como foi chamada, posteriormente à divisão na Ordem, a Fraternidade de onde vieram os Frades Menores). Enquanto na Europa ocorriam transformações e divisões na Ordem, no Brasil, estes frades viviam o espírito missionário e pioneiro de seu fundador. Há estudos ainda em curso sobre a verdadeira origem/denominação dos freis que chegaram na primeira expedição de Portugal para a Terra de Santa Cruz, uns historiadores defendem que os franciscanos observantes tornaram-se conventuais, e outros, capuchinhos, dado que a “província” original teve sua formação de fato datada só no ano de 1568. Sobre essa província, sabemos que fora formada por religiosos franciscanos de “mais estreita observância”, em obediência à bula Sacrae religionis sinceritas, de 8 de Agosto de 1568, tendo a sua sede no convento de Santo António dos Capuchos, em Lisboa (daí o fato de por vezes ser designada por província dos Capuchos). Formou-se a partir de um grupo de casas caracterizadas pelo rigor e o recolhimento, razão pela qual os seus religiosos chamavam-se Recoletos. Tendo constituído um ramo franciscano na Itália, por iniciativa do Ministro Geral Frei Francisco dos Anjos, em 1524, estenderam-se a Portugal, onde formaram uma Custódia em 1565. Desta província derivaram a Província da Conceição em Portugal (1706) e duas Províncias no Brasil. Foi extinta em 1834. No Brasil, nos primórdios da catequese do século XVI, os franciscanos da custódia de Santo Antônio não puderam fundar missões na Bahia, porque a Cúria Diocesana de Salvador não reconhecia as faculdades que Frei Melchior de Santa Catarina havia recebido da Corte e do próprio Papa Sisto V.

Como vimos, a ideologia franciscana seguia o carisma de seu fundador, São Francisco, e era baseada em pobreza, desapego por todo e qualquer bem terreno, predileção pela vida mendicante, de privações, penitências e mortificações; em respeito pela Natureza, por tudo que fora criado por Deus e estava sobre a Terra, pelos sacerdotes (representantes de Deus na Terra), pela Santa Igreja e por seus superiores; em defesa da justiça e da paz, a favor dos oprimidos, dos excluídos, dos marginalizados, contra os opressores, contra os dominantes.

Como então essa ideologia convivia com o status quo? Afinal foi uma decisão superior que mandou frades franciscanos para o Brasil. Não eram eles “funcionários régios”? A fim de quê? Quais eram os interesses da Coroa Portuguesa e da Igreja Católica Européia? Certamente não eram consoantes aos ideais franciscanos. Entramos aí em um dilema entre teoria e prática, pregava-se a pobreza, o respeito à justiça, à paz e à Natureza e se praticava o quê? Quem aqui vivia eram excluídos, “menores”, aos olhos europeus, como então se dava a realidade cotidiana entre frades europeus e nativos da Terra de Santa Cruz? A questão ideológica é bastante importante no carisma do fundador da Ordem, visto que Francisco não tolerava teto sobre sua cabeça, não admitia que se guardasse comida para o dia seguinte e até conversava com feras.

Já a ideologia jesuíta, originada na Contra-Reforma Católica, tem uma mística mais voltada à catequização, à educação, não tanto à missão junto aos “menores”, ao povo em sua realidade. A ordem religiosa Companhia de Jesus foi fundada em 1534 por Inácio de Loyola logo após a Reforma Protestante (século XVI), como uma forma de barrar o avanço do protestantismo no mundo, reafirmar a fé cristã, defender a Igreja e divulgar o catolicismo. Em Portugal, a Companhia de Jesus havia sido favorecida desde 1540, durante o reinado de D. João I, e, graças a ele, puderam os jesuítas estabelecer-se na América portuguesa sem encontrar os impedimentos colocados aos jesuítas espanhóis por Filipe II e pelo Conselho das Índias.  Os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil no ano de 1549, com a expedição de Tomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil, os quais eram os padres Manuel da Nóbrega, Leonardo Nunes, Antônio Pires, Aspicuela Navarro, Vicente Rodrigues e Diogo Jácome. Anchieta, um rapagão de dezenove anos, veio na leva seguinte. Nóbrega, que viera à frente dos demais, tornou-se Provincial com a fundação da província jesuítica brasileira, em 1553. 

Apesar de não ter sido a primeira ordem a se instalar aqui (aos franciscanos coube também no Brasil essa precedência), tornou-se a mais importante e a que maior influência teve na vida colonial brasileira. Para os jesuítas, tanto tinha importância a conversão das almas quanto a utilização econômica daquela mão-de-obra disponível; ao passo que, aos colonos (chamados por Nóbrega de “Christãos”), não interessava mais do que a exploração da força de trabalho indígena, sem que se interpusesse a isso o empecilho da catequização.

Os objetivos dos jesuítas eram os de levar o catolicismo para as regiões recém descobertas, no século XVI, principalmente à América; catequizar os índios americanos (denominados “nativos” na nossa análise), transmitindo-lhes as línguas portuguesa e espanhola, os costumes europeus e a religião católica; difundir o catolicismo na Índia, China e África, evitando o avanço do protestantismo nestas regiões; e construir e desenvolver escolas católicas em diversas regiões do mundo. Considerados grandes educadores, os jesuítas fundaram várias pequenas escolas primárias e alguns grandes colégios, entre eles os da Bahia, de Pernambuco, de São Paulo e do Rio de Janeiro. Nesses colégios, no entanto, o ensino não possibilitava ao colono tomar consciência de sua condição de explorado.

No Brasil colonial, como já foi dito, os jesuítas foram responsáveis também pela catequese dos índios. A catequese (ensino da religião católica) foi usada pelos jesuítas para impor a cultura européia aos nativos, explorar seu trabalho e impedir que reagissem contra a violência, o roubo das suas terras e os crimes praticados pelo homem branco. Para tanto, os jesuítas organizaram as Missões, também chamadas de Reduções. As Missões eram comunidades indígenas organizadas e dirigidas pelos jesuítas para catequizar, ou seja, converter os índios à religião católica, e atender aos interesses econômicos da Companhia de Jesus. A princípio, os nativos que se negavam a viver em missões eram submetidos pelas forças. Mais tarde, porém, os jesuítas passaram a defendê-los e a atraí-los para as reduções de maneira pacífica. Os nativos viviam livremente nas missões, mas os padres usavam o trabalho deles para cultivar os alimentos necessários, caçar, pescar, coletar as chamadas drogas do sertão (cacau, castanha, cravo, canela, plantas medicinais) e instalar novas missões. Parte das mercadorias produzidas ou coletadas pelos indígenas era vendida, e os lucros obtidos com a venda ficavam para os jesuítas. Os jesuítas não admitiam a escravidão do nativo pelos colonos, mas admitiam a do negro. Com essa atitude de “proteção” a este nativo da terra, os jesuítas estavam defendendo os interesses da Coroa Portuguesa, que cobrava impostos sobre o tráfico, e dos traficantes portugueses, que obtinham grandes lucros e enriqueciam com o tráfico negreiro. Quanto aos negros, os jesuítas ensinavam-lhes apenas a obedecer ao seu senhor e aos padres e, para evitar qualquer ato de rebeldia, diziam a eles que Deus não perdoava os desobedientes e rebeldes.

As missões jesuíticas geralmente acompanharam as migrações dos indígenas à medida que estes fugiam dos principais centros de colonização, tentando escapar da escravização a que os colonos os submetiam.  Dessa forma, fixaram-se principalmente no sertão, em regiões que não apresentavam atrativos de exploração imediata, o que não quer dizer que estivessem isentas de investidas, que não formassem elas mesmas um alvo de cobiça dos colonizadores, pela quantidade de nativos domesticados que aldeavam.  Seus principais redutos localizaram-se no deserto do norte do México, nas orlas da floresta amazônica e no interior da América do Sul.  Pela forma com que se organizaram, os jesuítas evoluíram com economias voltadas para a produção de excedentes comercializáveis pelos religiosos. Eles monopolizavam tanto a cultura da classe dominante (donos de terras) quanto a da classe dominada (negros, índios, mestiços e brancos pobres).

(Este texto é parte integrante da Tese

 Paz e bem: Análise do Discurso Religioso Quinhentista no Brasil,

da ProfªMs. Ana Cristina Opitz, UFRGS.
Fica proibida a reprodução e/ou edição do mesmo)


 


[1] São Francisco de Assis fundou três Ordens, cada uma com sua própria Regra de vida aprovada pelo Papa. As três Ordens formam há 800 anos a grande Família Franciscana, cujo carisma é servir o Reino de Deus evangelizando, atendendo os doentes e marginalizados, trabalhando pela paz, justiça e integridade da Criação através do exemplo, de ações e da promoção humana.

1ª)1209 – Ordem dos Frades Menores (OFM), destinada aos amigos-irmãos e seguidores de Francisco que queriam assumir a missão de viver e pregar o Evangelho como religiosos. Mais tarde a Ordem dividiu-se em: Menores (OFM), Capuchinhos (OFMcap) e Conventuais (OFMconv).

2ª)1212 – Ordem das Irmãs Clarissas, destinada à amiga Clara Offeduccio e suas amigas-irmãs e seguidoras que queriam viver em oração retiradas do mundo como religiosas.

3ª)1220 – Ordem Franciscana Secular (OFS), destinada ao casal Luchesio e Buonadonna e seus amigos(as)-irmãos(ãs) e seguidores(as) leigos(as) que queriam assumir a missão de viver e pregar o Evangelho inseridos no mundo como irmãos(ãs) da Penitência. A OFS é constituída por Fraternidades abertas a todos os cristãos  que queriam observar o exemplo de Francisco e Clara de Assis no seguimento do Evangelho de NSJC.


[1] “Misticismo”, “mística”: palavras bastante usuais no Discurso Religioso que denominam a espiritualidade característica de cada grupo religioso, o carisma de seu fundador, a sua maneira de enxergar a realidade e agir na sociedade.

[2] Cumprimento usado pelos frades principalmente em situações de perturbação da ordem social, em que era necessário identificar-se como um franciscano para se ter o direito de ir e vir em alguns lugares na Europa.

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